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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Um sonho ruim

          Essa é a segunda história da pequena série "Essa história de amor". Essa também, fui buscar no baú da infância, como diria o Manoel de Barros. Espero que goste e comente. Boa leitura.



Ela nunca conseguia gritar e naquela noite, não foi diferente. Antônia acordou assustada com o pesadelo e, sozinha no quarto escuro, chorou baixinho, toda encolhidinha na sua cama rosa, esperando que o sol amanhecesse logo aquele dia. O mais estranho é que o pesadelo era quase sempre o mesmo. Ela corria, corria, corria, mas tinha sempre a sensação de que o cachorro do seu Rantzau a alcançava. Lá na rua, todo mundo tinha medo daquele cachorro, que até podia ter um nome, mas ninguém sabia. E quando por algum descuido o gigante de pelo branco e cinza saia para rua, era um alvoroço!!
— O cachorro do seu Rantzau está solto!! – gritava um.
— Cuidado!! Cuidado, com as crianças!! – alertava outro.
Antônia não estava muito segura, mas achava que tinha sido mordida pelo cachorro do seu Rantzau. Ou melhor, quando achava, tinha certeza, embora nunca tivesse encontrado uma cicatriz que comprovasse aquela ideia e nem nunca perguntado aos pais, se aquela sensação, tinha acontecido um dia. Mas estava claro que só podia ter acontecido. Senão, porque aquele pesadelo repetitivo? E o mais estranho na história toda era que sua gatinha, Valentina, fiel protetora, que arranhava qualquer um que se metesse a besta com Antônia, sequer aparecia no sonho. Tudo muito estranho. E o pior era que a menina nunca tinha conversado com sua mãe sobre os pesadelos. Aliás, com ninguém. Nem mesmo com Valentina!!
Quando à noite, Antônia era visitada pelo maldito pesadelo, a manhã era de tristeza. Amanhecia distante da mãe e com raiva de Valentina. Dava até dó de ver a gatinha se enroscando na perna dela, sem entender porque a cara de brava, ou aquele olhar perdido. Antônia também não entendia porque nem Valentina, nem sua mãe apareciam no pesadelo para salvá-la. Nem mesmo quando ela voltava para o mundo do seu quarto. Depois que acordava ficava ali, chorando sozinha, com medo de sua mãe acordar e ainda por cima, brigar com ela. Talvez o mais estranho fosse esse medo de falar e de gritar pedindo ajuda. Aí, depois que o dia seguia e ela percebia que nem sua mãe, nem Valentina adivinhariam a razão de sua raiva, se sentia culpada a ponto de quase chorar. Do nada, corria e abraçava a mãe e fazia em Valentina todos os carinhos que ela mais gostava. As duas sempre aceitavam os carinhos, que eram na verdade, pedidos de desculpa.
Até que um dia, Valentina não aceitou seu pedido de desculpas mudo e fugiu. A gatinha passou o dia inteiro fora, na rua, e Antônia sofrendo de preocupação, achando que o cachorro do seu Rantzau podia machucá-la. À noitinha, quando os adultos já começavam a tirar as cadeiras de balanço da calçada e se despedir dos vizinhos, lá se viu Valentina dobrando a esquina. Vinha devagarzinho, quase encostando o pelo na parede das casas e o olhar no chão. Antônia soltou sua cadeirinha de balanço e correu para encontrar sua mais querida amiga. Apertou tanto a pobre gata, que ela gemeu. Vasculhou seu pequeno corpo procurando qualquer machucadinho e sentiu alívio quando não encontrou.
— Que bom que você voltou Valentina! Que bom! – a menina rodopiava na calçada, levantando a gatinha à altura das estrelas, para depois apertá-la contra o peito – Você comeu? O que você bebeu? Por que você fez isso? Eu fiquei tão triste achando que você tinha se machucado... me desculpe, Valentina, me desculpe...
Entraram em casa e foram direto para o quintal. Antônia trouxe água, comida, leite, tudo o que Valentina mais gostava. A gatinha comeu e bebeu, mas não demonstrou que também estava feliz. Depois que terminou se afastou da menina e se aninhou sozinha perto da parede. Antônia sentiu aquela rejeição como uma queda. Duas lágrimas escorreram pelas bochechas sardentas.
— Eu sei Valentina, você ainda está triste comigo, não é? Eu sei. – a gata que olhava vagamente para o fundo do quintal, virou-se para a menina e disse sim em silêncio – Me desculpe, Valentina. Mas também, por que você nunca aparece quando eu mais preciso? – Valentina se assustou – É, nem você nem minha mãe, nunca aparecem quando eu mais preciso.
Ainda sem entender, a gatinha se levantou e se aproximou de Antônia. Sentou diante dela pedindo explicações. Antônia nem viu que sua amiga tinha se aproximado. Sentada no chão do alpendre, apertando as pernas contra o peito, chorava baixinho, como sempre fazia nas noites de pesadelo. Valentina não entendia a razão do choro, mas percebia que a menina estava sofrendo de verdade. Mesmo com o orgulho ferido, se enroscou em Antônia, que recebeu aquele carinho com surpresa.
— Valentina, por que você nunca vem me salvar quando eu tenho pesadelo com o cachorro do seu Rantzau?
— Mas eu nunca soube que você tinha pesadelo com aquele cachorro! Como eu poderia te salvar? Como eu posso entrar no teu sonho? Me diz!
— Não sei, não sei. Mas você nunca vem me salvar. Eu estou sozinha na rua e aparece aquele cachorrão peludo querendo me morder. Eu corro, corro, corro e não adianta nada. Ele sempre me alcança. E o pior é que ele só anda. Eu corro, ele anda e ainda assim me alcança. Aí quando ele vai me morder e abre a boca enorme pra mim, eu acordo assustada. Morrendo de medo. Nem quando eu acordo você vem ficar comigo. Nem minha mãe vem. Minha mãe também não vem.
As palavras saiam lavadas com lágrimas da alma de Antônia. A gatinha ficou andando de um lado para o outro tentando explicar que ela jamais iria adivinhar que a menina tinha esses pesadelos, que Antônia devia ter contado antes, que essas sensações a gente precisa dividir, que... isso, que... aquilo.
Antônia adormeceu no chão, de tanto chorar. Naquela noite, Valentina não fechou o olhou, nem mesmo depois que o pai da menina a levou para a cama. Uma noite de insônia felina. Deitada ao seu lado, qualquer movimento era suficiente para a gata levantar a cabeça atenta. Mas aquela não foi uma noite de pesadelo. Na manhã seguinte, Antônia foi acordada pela mãe, como de costume: com cócegas nos pés. A menina acordava primeiro o sorriso, depois os olhos. Valentina, coitada, só dormiu quando o sol já tinha chegado.
— Dormiu bem, filha? – embora não fosse, aquela pergunta parecia nova.
— Dormi sim, mamãe. Essa noite nem sonhei com o cachorro do seu Rantzau.
— E desde quando você sonha com ele? Como é esse sonho? – nessa hora, Valentina ficou atenta e torcendo para que Antônia conseguisse contar o pesadelo também para mãe. Ela não sabia muito bem porque, mas achava que era bom contar um sonho ruim, para que ele não acontecesse de verdade. Quer dizer, para que a verdade dele, não passasse de sonho. E naquela manhã de sábado a mãe de Antônia conheceu um pouco mais sobre sua pequena.
Os dias caminharam e nem sombra do cachorro do seu Rantzau no sono de Antônia. Foi aí que numa noite dessas qualquer... lá estava Antônia correndo apavorada pela rua deserta e atrás dela o cachorro do seu Rantzau. A menina corria o mais rápido que podia para alcançar a porta de casa e entrar. Quanto mais ela corria mais a porta ficava longe e mais perto chegava o cachorro. Ninguém na rua, ninguém para salvá-la. Antônia corria, mas o chão embaixo dos seus pés parecia não mudar. E o cachorro se aproximando, e o cachorro cada vez mais perto. Ai a menina parou, respirou o mais fundo que pôde e gritou.
— Mãããããããããããe!!! – Valentina, acordou de um pulo e nem bem Antônia abriu os olhos já se enroscava no seu rosto. Sua mãe também foi ligeira e logo acendeu a luz do quarto.
— O que foi minha filha? – Antônia, de olhos arregalados, apertava Valentina contra o peito. Com os olhos cheios d’água e um sorrisinho nascendo no canto da boca, a menina respondeu:
— Foi o sonho, mãe, aquele sonho. – Antônia começou a contar o pesadelo com detalhes de sons, cores e cheiros. A mãe e Valentina escutaram atentamente a história.
— Mas foi sonho, filha.
— Só um sonho, Antônia.
— É... ainda bem, né? Foi só um sonho...

E ali ficaram as três abraçadas, sem precisar dizer nada. Pelas frestas do telhado entravam os primeiros raios de sol amanhecendo outro sábado. Depois daquela noite, ainda outras vieram em que Antônia teve novamente o pesadelo, mas não foram muitas. Agora, o que nunca mais lhe faltou foi coragem para pedir ajuda.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O dia em que Valentina conquistou seu reino

              Depois de várias semanas sem textos novos, aqui vai uma historinha. Essa é uma das que eu cato no meu baú de tralhas, invencionices e lembranças, para colocar aqui no Balaio. Espero que goste! Ah, gostando ou não eu queria muito que você me dissesse o que achou dela. Certo? Boa leitura!



            Mas aquilo já era demais! Não é possível que ela fosse assim tão malvada! Quem ela pensava que era? Enquanto ouvia esses pensamentos, chorando de raiva, Valentina subia magoada pelos galhos da mangueira. Parava um pouco, chorava um tanto e depois subia mais. Até que acordou de susto quando o pezinho escapuliu. Só aí se deu conta de que tinha subido tão alto, que quase dava pra ver o fim do mundo! O sol que se arrumava para dormir lançou-lhe um carinho de raio nos olhinhos chovidos. A menina riu enxugando a bochecha.
Noooossa, Antônia, subi tão rápido que quase caí, não foi? – Perguntou isso automaticamente, porque no fundo Valentina sabia que sua árvore nunca, jamais, nunquinha a deixaria cair. E dava mesmo para pensar isso, porque de um jeito ou de outro, um galho sempre ficava ao alcance de suas mãos.
— Foi sim, majestade apressadinha. E por que esse choro? Antônia era o chamego de Valentina. Ou seria o contrário? Não se sabe. O que se sabe é que tinha um encantamento entre aquelas duas. Ah, se tinha! Tanto a irmã mais velha, quanto a mais nova já tinham caído da mangueira, e por isso mesmo, nunca subiam tanto. Valentina era a rainha e Antônia era o seu reino.
— Ah... minha mãe é muito chata! Ela pensa que manda em mim. Como é que eu ia pra praça com esse vestido todo sujo? Foi sem querer que eu me sujei! Sem querer!
— É que os adultos são assim, um pouco mandões. Eu sei que foi sem querer, eu sei que foi. Logo passará essa raiva, você vai ver.
— Raiva? Mas eu não tô com raiva. Claro que não, Antônia! Filha não pode ter raiva de mãe, sabia?
— Ah, não? Por que não?
— Porque... porque... porque... ora, porque sim! Eu amo minha mãe!
— E quem disse que às vezes a gente não sente raiva de quem ama? Sentir raiva não apaga o amor que a gente tem.
— Não? Como você sabe? Você nem é gente, Antônia.
— Não sei, eu sinto. Sinto que você está com muita raiva de uma pessoa que você quer muito bem.
— Tô é nada. Eu nem queria mesmo ir praquela praça...
— Agora, você está mentindo.
— Ah, mangueira... para, ô! Senão eu vou descer.
— Mas é uma mimada, essa menina. Tudo bem, tudo bem. Não quero que você desça, estava com muita saudade de sua majestade.             
— Eu também minha mangueirinha, eu também. ‒ Valentina abraçou com todo carinho do mundo o galho mais próximo, que também era o favorito. Aliás, ela adorava escolher seus favoritos. ‒ E sabe o que mais? Duvido você adivinhar.
— Não acredito!
— Duvida?
— Duvido muito!
— Pois agora, você vai ver. Olha isso!
            Quase nem respirou e Valentina já subia reino acima na direção do altíssimo. É que um dia, seu pai amarrou almofadas reais pelos galhos e uma das almofadas tinha sido amarrada em um galho altíssimo! Foi isso que ele disse: altíssimo! Devia mesmo ser um galho importante. E Valentina seguia. De vez em quando parava e confirmava a dúvida da árvore. Quanto mais a mangueira duvidava, mais a menina subia. Eita menina sapeca, parecia mais uma macaquinha de tão ágil e forçuda. Ela se esticava todinha tentando encontrar apoio para subir mais um galho. Era nessas horas que sem mais nem menos aparecia um galho perfeito, mas que ela não tinha visto antes.
Antônia gargalhava de tão feliz e orgulhosa. Até já dava para avistar o trono real, ali, perto do fim do mundo, quase encostado no céu. Mas para chegar naquele galho e sentar naquela almofada era preciso muito mais. Não era à toa que seu pai tinha usado a palavra “altíssimo”. Pois é. A certa altura, Valentina pensou que dali não passaria. Mas ela era mesmo teimosa. Olhou em redor, avaliou as distâncias e enchendo os pulmões de coragem pulou na direção do galho mais próximo. E por alguns instantes Valentina voou. Agarrada no galho abraçou-o também com as pernas e subiu arrastando o vestido sujo de sorvete. Que danada! A mangueira aplaudiu.
— Viu só, Antônia? Eu não disse que chegava até o altíssimo! Quem mandou você duvidar?
— Pois não foi, majestade! Como você foi ágil e valente! ‒ Dizia a mangueira saltitando de alegria, como só as árvores sabem fazer.
— Meu pai não vai acreditar que eu subi até o altíssimo! Eu sou a rainha da minha mangueira!
            E ali ficou a rainha Valentina, sentada no seu trono almofadesco, enquanto o sol lhe fazia uma reverência e ia embora por detrás dos telhados das pequenas casas da vila. 
— Valentinaaaaa! Cadê você, menina?
— Ih... é minha mãe. Eles voltaram, Antônia. Que é, mãe? Tô aqui no altíssimo!!
— No altíssimo? Como é que você subiu aí, sua danadinha?
— Ora, mãe... com meus poderes de rainha, claro!
— Poderes de rainha, é? Pois então dona rainha, trate de descer, antes que escureça ainda mais e seu reino fique muito perigoso.
— Eu não disse, Antônia, que a mamãe pensa que manda em mim... ‒ Disse ela cochichando em um dos ouvidos da árvore.
— Mas ela tem razão, majestade. Acho que já está na hora de sua majestade se recolher aos seus aposentos. ‒ A menina fez cara de interrogação com aquelas palavras estranhas, mas não quis perguntar o que era. Começou a descer bem devagarzinho, como se não quisesse chegar ao chão. Já embaixo, abraçou o tronco da mangueira e beijou uma de suas bochechas.
— Valentina!
— Já vou mãe! Tchau, Antônia. Durma bem e lembre sempre que eu te amo.
— Eu também, minha valente.
— Valentina! Ô filha, saia logo desse quintal. Venha... venha... venha fazer sua coroa!
— CO RO A? ‒ Os olhinhos da rainha brilharam como duas luas cheias ‒ Coroa, mãe?
— Sim, claro. Se você acaba de conquistar um reino, agora precisa de uma coroa. Onde já se viu uma rainha sem coroa? Venha logo ‒ e a menina foi pulando, correndo e virando estrelinhas, do fundo do quintal até aporta de casa, onde a esperava a rainha mãe.
— Que dizer que a senhorinha subiu até o altíssimo? ‒ abraçada às pernas da mãe, Valentina pedia desculpas pela birra, bem baixinho, mas sem dar o braço a torcer ‒ Seu pai já sabe disso?
— Não, mãe!!! Cadê meu pai? Paaaaaaai, eu subi até o altíssimo!
E lá se foi vossa majestade, a rainha Valentina I, pela casa a fora rumo a primeira noite do seu longo reinado.



domingo, 23 de setembro de 2012

O rio e o oceano



         Hoje compartilho contigo uma história das que vou catando por aí. Essa, encontrei vasculhando velhos arquivos, e mais do que nunca ela cala fundo. A conheci ouvindo as histórias de Osho. Histórias de sabedoria.

 O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria, 
aperta e aí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.
 João Guimarães Rosa


         Conta-se que antes de um rio desaguar no oceano, ele treme de medo, vacila, reluta mesmo. Num movimento quase desesperado, olha para trás para toda a sua jornada. Olha os topos, as montanhas, o caminho interminável e sinuoso em meio às florestas, os povoados e as planícies e só enxerga diante de si, bem à sua frente, um oceano.
         Um oceano tão vasto, que a assustadora ideia de entrar nele, parece significar desaparecer para sempre. Sempre. Mas não há outro jeito, não há outra possibilidade.
         Um rio não pode voltar. Ninguém! pode voltar.
         Nessa existência, a volta é impossível. A nós, só é permitido o ir em frente.
         Mesmo vacilante, o rio precisa se arriscar e se jogar no oceano, se misturar a ele. Somente quando ele entra no oceano é que percebe que já não há medo. Alívio. Porque só então, o rio entenderá que não se trata de se perder no oceano, mas de tornar-se oceano. Por um lado é perder-se e por outro é renascer.
         E assim somos nós, também. Só nos resta ir em frente e nos arriscar a renascer como oceanos. Como diria Guimarães, coragem é o que a vida quer de nós. 

Avance firme na direção do Oceano que é você!

domingo, 2 de setembro de 2012

O homem, o cálice e o louco



         Essa história eu catei durante a leitura de “O caçador de pipas”. Esse é o primeiro conto escrito pela personagem principal, o narrado da história, Amir. O conto não é exatamente assim, pois, como já avisei, essas histórias eu conto com as minhas palavras. Invento um ponto aqui outro ali, mas a essência é a mesma e por isso a História não é minha. É dessas que vou catando por aí. Tenha uma ótima semana de lindas histórias. 


Era uma vez...



        ... um homem. Embora fosse muito pobre, ele sempre encontrava motivos para se alegrar. Um dia, desses qualquer, durante a pescaria, na esperança de levar comida para casa, o homem pobre puxa um cálice, preso no anzol. Indignado por não ter conseguido pescar um único peixe para matar a fome de sua família, ele pensa em jogar fora o cálice, mas desiste pensando que talvez consiga trocá-lo por comida na feira. Ele limpa bem o objeto a ponto de ver umas instruções gravadas na base da peça.
        Depois de muito pensar ele descobre que aquele é um cálice mágico, que transforma lágrimas em pérolas. Cada lágrima derramada dentro do cálice transformava-se em pérola. Lágrimas de alegria davam perolas negras, lágrimas de tristeza, pérolas rosadas e lágrimas de dor pérolas brancas. E o tempo foi passando. Sempre só de ida. O homem, que já não era mais tão pobre, procurava cada vez mais motivos para chorar. Quanto mais lágrimas ele derramava, mais pérolas brotavam do interior do cálice. O homem foi tornando-se mais e mais ambicioso, à medida que procurava motivos ainda piores para derramar lágrimas.
        Diz que quem o viu pela última vez, sobre uma montanha de pérolas, foi o louco da aldeia. Em uma mão, o homem segurava a faca, com que havia matado sua esposa e com o outro braço segurava o corpo, já sem vida, de sua amada. O homem, aos prantos, derramava lágrimas de arrependimento e dor, que também se transformavam em pérolas. Foi aí que o louco, que passava por lá, vendo aquela cena parou diante do homem. Espantado, perguntou por que ele havia matado sua esposa, se a amava tanto.
        O homem balbuciou algumas palavras dizendo que a ambição lhe tinha dominado a alma e que desde que encontrou aquele maldito cálice, ele só procurava tristeza e dor e razões cada vez piores para chorar. De certo que a explicação não convenceu o louco, que abanava a cabeça, segurando-a com as mãos, como quem diz: não entendo, não entendo. Seguiu pela estrada, alguns passos trôpegos e voltou num ímpeto de loucura e gritou:
— Por que ao invés de matar sua esposa, você não foi cortar cebolas?