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domingo, 10 de maio de 2015

O encontro

Esta crônica foi escrita em agosto de 2011 e mostra um pouco o meu encantamento com esta pessoa maravilhosa, de nome estranho e simplicidade tibetana. Infelizmente, há alguns dias eles nos deixou e foi pintar o além com suas cores fortes e traços de cabra da peste. Uma forma de declarar meu amor a esse ser humano de altíssimo quilate. Pra todos que, como eu, estão sentindo sua falta, meus sentimentos.



              Desci do carro e, do outro lado da rua, olhei a casa 197, logo em frente. Vestida de amarelo bem velho e muito cansado tinha portões de ferro, que tentavam bravamente parecer brancos. Seria ali mesmo? Aquela modéstia não condizia com minha imaginação bem adubada do que seria sua casoficina. Com apenas cinco passos atravesso a rua, desviando de poças d’água da chuvinha daquela madrugada. A cada passo a brisa vinda do mar recém amanhecido me acariciava. Nem assim aliviava a tensão. O muro baixinho e a grade de ferro me deixavam ver um homem grande sentado a uma mesa improvisada, rabiscando. Mesmo de longe dava para ver a pequena varanda da casa transformada em um arremedo de ateliê.  “Deve ser ele” – pensei. Estava bem no meio da rua quando senti vontade de dar meia volta volver, mas as pernas continuaram obedecendo ao comando de atravessar. Seguimos. Na noite anterior eu não tinha dormido direito, só ensaiando como me comportaria diante dele, o que diria, sobre o que falaria para não parecer idiota. Inútil. Além de dormir mal agora estava ali sem a menor condição de grandes elaborações.
                Nem bem pisei na calçada, ele percebeu que eu me aproximava e levantou-se devagar.  Procurou a chave do cadeado que mantinha a grade fechada, mas não achou. Entrou em casa, depois de acenar para que eu esperasse, enquanto eu dizia bom dia do jeito mais polido que consegui. Acho que ele nem ouviu. Foi aí que saiu com um chaveiro na mão, abotoando a camisa de estampa grande e colorida, já comentando que - a Flora, minha neta, sempre esconde a chave. Mas é sem querer, sabe? Eu ainda aguardava antes do primeiro portão, mesmo que esse estivesse entreaberto. Pela cara, ele só deveria ter sido fechado nos primeiros anos de sua juventude, o que parecia ter sido há muitos anos atrás. Contornei a parte fixa ao chão por um ferrolho e entrei. Do lado esquerdo, o murinho terminava na parede da casa vizinha onde estava pintada, bem grande, uma cara de sol e outros motivos do litoral sertanejo. Parei, reverentemente, e deixei que as figuras me olhassem. Como em Jericó, o sol parou.
                Anos atrás, eu tinha visto suas pinturas em uma livraria de Fortaleza e fiquei encantada, perplexa, extasiada, absolutamente tocada por suas formas tão nordestinas e suas cores. Ah... suas cores!! Desejei um quadro seu. Sim, desejei um quadro, mas na verdade o que eu queria era a pintura, o desenho, o traço, a vida de seus quadros, sua arte!! Desejei tê-lo como mestre, como professor. Até consegui seu telefone, mas depois perdemos o contato e todas essas memórias e desejos foram parar no meu reino perdido do Beleléo. Mas agora eu estava ali em sua casa, diante do artista! É bem verdade que o homem parecia um pouco cansado de carregar para lá e para cá, sem muitos cuidados, talvez mais que meia dúzia de décadas. Em Jericó o sol parou por 24 horas. Para mim, ele piscou. O sol da parede amarela piscou o olho e eu acordei.
– O senhor deve ser o Audifax.
– Eu sou o Audifax, mas não o senhor – sorrimos, nos cumprimentamos com um abraço e ele me ofereceu um tamborete com o assento de couro para eu sentar.
– Bom, eu, é... eu queria lhe dizer que para mim é um sonho estar aqui com o senhor, quer dizer, com você. – Encabulado, ele sorriu baixando a cabeça.
– Eu soube que era você, desde a hora em que o carro parou ali na frente.
                Começamos a conversar como se já tivéssemos intimidade, tão grande era a identidade de nossas idéias. Depois, foi logo me mostrando os rascunhos que tinha feito e refeito.
– Já comecei e recomecei umas três vezes, mas não estou convencido. Precisa ter uma continuidade, sabe? Mas assim que eu terminar a publicação do meu último livro vou me dedicar ao teu e terminar sem parar.
De vez em quando, eu parava de ouvir sua voz, que ia ficando cada vez mais distante e sentia como se estivesse flutuando. Ainda não acreditava no que estava acontecendo. Em flashes eu relembrava o encantamento da primeira vez em que vi suas pinturas. Relembrava também o dia em que a história, que agora estava ali para ser ilustrada por ele, me visitou e se escreveu no meu caderno. Agora já não sentia ansiedade, me sentia anestesiada. Um dia eu sonhei em ter um quadro seu e agora estava ali discutindo sobre sua ilustração para meu primeiro livro infantil. Só podia ser sonho!
– Você aceita um café? – de novo acordei.
– Quero sim. Eu adoro café!
                A entrada era pela sala, onde se viam muralhas de livros espalhadas por toda parte e nas paredes, quadros. Muitos. Tantos que as paredes pareciam colchas de retalhos. E que belos retalhos. Com dois passos entrei na sala. Quis tirar as sandálias, quis cobrir a cabeça, quis me ajoelhar. “Calma Aninha, é apenas uma sala”. O corredor que dava na cozinha era todinho tatuado de gravuras e pinturas. E na cozinha, mais livros e mais pinturas. Sua esposa nos serviu bolo e café, água e conversa. Depois, voltamos para a varanda.
– Sabe que na hora que te vi eu já achei que a gente iria se dá bem? Meu santo bateu com o teu. Vai ser ótimo fazer esse trabalho. Agora sai!
                Depois de falarmos sobre a ilustração do meu texto, ele começou a me mostrar seus livros e outros trabalhos de ilustração. Contou que estava um tempo sem pintar quadros, mas que pretendia voltar o quanto antes. Tomei coragem e perguntei se ele não toparia me ensinar a desenhar e pintar. Ele sorriu e me sugeriu que o imitasse.
– Foi assim que eu aprendi. Imitando. Quando me dei conta, tinha o meu estilo, o meu traço e as minhas cores. Esses livros aqui, eu separei pra ti. Ah, e aquela editora lá, não é boa não. Vou te apresentar a um amigo que está começando agora, mas é um cara decente e competente. Aquele outro, eu andei me estressando com ele. Promete e não cumpre, o material nunca sai do jeito que você espera, enfim. Aliás, como tu estás de tempo?
– Tenho o dia inteiro livre.
– Pois pronto. Tu esperas aqui que eu vou ligar para ver se o Flávio pode nos atender. Espera aí.
                Novamente, me afundei nos meus pensamentos. Só subi, quando estava quase sem ar. Me sentia tão grata e tão agraciada. Ao sairmos olhei novamente para o enorme sol e me despedi com uma simpática piscadinha de olho. Hoje, algumas semanas depois, recebi por e-mail as primeiras ilustrações do livro e diante do computador, novamente experimentei aquela ansiedade, aquele encantamento do nosso primeiro encontro. Dias atrás, depois de ter lançado o livro em São Paulo e de férias em Fortaleza, voltei à sua casa numa visita de surpresa. Mas a surpresa maior foi minha. A casa agora está vestida de azul e no lugar do sol há peixes nadando pelas paredes.

sábado, 7 de março de 2015

Caminho da anta

Pois é... finalmente, o 2015 chegou também ao Balaio!! Desejando que o seu 2015 continue iluminando e abrindo um novo tapi'i'rapé a cada dia. Boa leitura!

Faz tanto tempo eu li, em um dos textos do Rubem Alves, não me lembro exatamente em qual, que o único mecanismo de defesa da anta era correr para o seu velho e bom caminho. A proteção viria pelo fato de que em um dado trecho a passagem era apertada o suficiente para passar apenas a anta, deixando para trás o eventual predador que estivesse com as garras e presas encravadas em sua carne. Particularmente, do alto da minha sapiência de sapiens sapiens, eu não diria que esta é uma boa estratégia de sobrevivência. Mas considerando o fato de que essa espécie só está ameaçada de extinção por causa da caça pelos sapiens e do desmatamento, talvez a estratégia não seja, assim, de todo ruim.
Pois foi depois que me mudei, recentemente, que essa história voltou às lembranças. Dentro da casa nova senti exatamente o que deve sentir uma anta em reabilitação, que é deixada numa floresta estranha. Não havia caminhos conhecidos que me fizessem sentir familiaridade ou proteção. Voltar para aquela floresta, ao final do dia, implicava sempre negociações. A casa não me acolhia. Não tinha jeito. Na verdade, o espaço novo oferecia uma resistência danada à minha entrada. Eu desejava um caminhozinho que fosse. Mas não apareceu nenhuma anta salvadora para me ajudar. Isso só começou a mudar quando passei a receber na minha nova floresta as pessoas mais queridas: as escritoras das tardes alegres de terça-feira, as bruxas amáveis dos diálogos com as deusas, as Azevedas, os Martins a Eva. Elas foram amansando o espaço e ele, aos pouquinhos, cedia. Passava a ser familiar, se mostrava familiar. Quase sorria pra mim.
O mais engraçado, foi perceber que quando o espaço me acolheu eu fui lá e mexi nele de novo! Mudei uma mesa de lugar, reorganizei um dos quartos, mexi nas plantas, inutilizei armadores, planejei novos, pendurei outros quadros. Só que dessa vez, ele me aguentou. Nem reclamou nem nada. Parece que agora somos já parceiros. Ou como diz a Bel, meu anjo da guarda, finalmente, chegou. É como se todos os caminhos ali dentro já fossem meus, conhecidos ou não, trilhados ou não. Todos caminhos da Anna. Aliás, os índios Aikewára conhecem ainda outro caminho da anta, Tapi'i'rapé. No céu deles, há uma constelação, Anta do Norte, que surge ao anoitecer na segunda quinzena de setembro, no lado Leste e caminha pela Via Láctea. Para eles a Via Láctea é o caminho da anta, Tapi'i'rapé. E que caminho! Essa constelação indica uma estação de transição entre o frio e o calor para os índios do sul do Brasil e entre a seca e a chuva para os índios do norte do Brasil.

Um caminho da anta que não representa nem só o familiar, nem só a mesmice, e sim o movimento, a transição, a mudança. Talvez seja isso que faça a presença das pessoas amadas no novo espaço. Seus passos, seus corpos se deslocam fazendo o ar dançar, fazendo o espaço bailar numa dança de vida. Aí as pegadas ficam como pontos reluzentes e o chão vira um céu onde brilha um Tapi'i'rapé só meu, só nosso. Não leio mais Rubem Alves. Ele ficou um pouco repetitivo pra mim. Mas talvez todo autor fique repetitivo quando se dedica a defender uma ideia, uma hipótese. Talvez, até os grandes autores tenham o seu caminho da anta. 


domingo, 16 de novembro de 2014

Luz de verdade ou estrela de mentira?

 Para embalar o soninho do domingo e começar bem a semana, uma Cronicazinha de Balaio. Depois me diga: você conhece alguma Berenice assim? Boa leitura.



              — Alô. Oi Demerval, tudo bem? Tá certo. Mas eu ligo lá? Tá bom. Obrigada viu.
            Que bom, capaz que a Clara já leu os contos e quer me dizer o que achou. Será que ela gostou? Ai ai ai e criança fala mesmo, não tá nem aí pra paçoca. Aff! nunca pensei que fosse ficar tão ansiosa.
            — Oi Demerval, é o 34, não é? Liguei e ninguém atende. Ah, deve ser. Bom, vou esperar, então. Boa noite querido.
            Desliguei o interfone e fui me ocupar com as pequenas tarefas de quem acabava de chegar em casa, depois de passar boa parte do sábado lá na EACH. Só não conseguia parar de pensar no que teria achado a Clara, minha mais nova avaliadora de textos. Tomei banho, comi um sanduíche de queijo com uma deliciosa taça de vinho e me pus, preguiçosamente, em frente a televisão. A sensação era de dever cumprido e de euforia pela possibilidade de conversar sobre o novo conto com uma leitora de 10 anos. Conforme a taça era esvaziada, o dia de trabalho ia se apagando e o desejo de saber sobre o texto tomava novos contornos e novos tons. Mas nada do interfone tocar. O que tocou foi a campainha – será que ela? Mas a mãe deveria interfonar antes, nera? Hummm já não gostei dessa invasão.
            — Quem é?
         — Berenice! – quê?! Ah não, que que essa moça tá fazendo aqui? Você não vai convidar pra entrar, vai? Não eu não quero, mas... Mas nada! Anna Karenina. Você não a chamou, ela não avisou que vinha, nada de educaçãozinha proforma. Mas, mas, que merda! Eu quase não conheço ninguém nesse prédio. E vai continuar sem conhecer. Imagina se todo mundo aqui é assim?
            — Boa noite. Como vai?
          — Oi meu amor, tudo bem. Vim trazer uma comida, que eu não sei se você gosta, mas minha mãe faz tão bem que você vai adorar, tenho certeza – não recebe. Agradece e diz que não pode aceitar por causa.... por causa da tua religião! Fala que tu é judia! É isso. Tá louca? A moça vem aqui com toda gentileza e eu...
            — Ah muito obrigada.
            — Você não vai olhar o que é?
            — Ah, devo? Ééééé... achei que.... deixa pra lá.
           — É dobradinha, menina! Ouvi ontem você dizer que é do Ceará. Como certeza você adora. Vocês chamam de panelada, não é? Minha mãe também é cearense – eu te falei pra não aceitar. Só falta agora ela se convidar pra comer contigo. Vai ser lindo tu passando mal só porque não sabe dizer não. Coisa mais idiota. Não, ela não vai ser louca de fazer isso. Hã? Não duvido de nada.
            — Você gosta não gosta?
            — Na verdade não, quer dizer, não muito, mas sua mãe deve cozinhar muito bem.
         — Cozinha mesmo. Mas que linda sua casa. Nossa, ela parece bem maior que a minha! – tá vendo esse é o primeiro passo pra se convidar pra entrar. Fala logo que você tá ocupada. Sim, bem ocupada, com a televisão ligada e uma taça de vinho no braço do sofá. Ela vai sacar que é mentira. Anna Karenina, Anna Ka re ni na, a mentira foi feita para ser usada nessas ocasiões meu bem. Você ainda não aprendeu?
            — Ah... muito obrigada. Eu gostei de como ficou. É, pois é, eu tirei um dos quartos. Não, não conheço sua casa, não – se você não cortar essa conversa agora, ela vai cruzar a soleira e aí fodeu! Não arreda um milímetro!
            Eu segurava o depósito plástico, ainda bem quente, exalando o cheiro típico de panelada, sem me mover. Já a moça, coitada - quer dizer, coitada de mim - se esgueirava tentando se livrar da minha imagem e espiar a casa. Ainda bem que as luzes não estavam todas acesas, então não dava pra discernir muitos detalhes. Só que o calor da comida começava a incomodar e eu precisava colocar aquilo na bancada – não faça isso! Mas está me queimado! Uma queimadurinha de nada, não vai fazer mal nenhum. Como não? Aguenta, aguenta senão tu vai te arrepender. Inventa qualquer desculpe, mas fecha essa porta!
           — Outra hora você vai lá em casa. Ah e o Reinon gostou muito do livro que você deu pra ele. Ele adorou! Eu também.
            — Que bom... ele é seu filho... Fico contente. Pode deixar que outra hora eu passo lá sim.
            — Você colocou aquecedor ou chuveiro elétrico?
            — Ãh? Que? como assim? Ah... coloquei aquecedor.
            — A gente colocou chuveiro. Você tá gostando?
            — De quê? Ah claro, tô, tô sim – eu disse não disse? mas eu te disse, eu te disse – Ô Berenice, querida, muito obrigada pela visita, mas eu acabei de chegar do trabalho ainda tenho que fazer umas tarefas e não quero dormir tarde. Se você me dá licença eu vou indo, quer dizer, vou ficando – hummmm até que enfim aprendeu a mentir, heim! E não é que você mente bem, filhinha! Até eu tô achando que a gente vai ter que trabalhar ainda hoje! Hahahahaha.
            — Claro, claro. Outra hora eu volto. Mas essa flor é de verdade ou é de mentira?
            — É de verdade.
            — Posso ver?
            — Qual? ah... essa é de mentira.
            — Logo vi. Mas parece de verdade.
           — É né? Pois é Berenice... eu realmente queria entrar. Muito obrigada pela visita e pela panelada.
            — Depois você me diz o que achou.
            — Pode deixar. Boa noite.
            — Linda essa flor. Depois você me diz onde comprou? Vou querer uma igual!
           — Boa noite. Digo, digo sim. Vou procurar o cartão, porque agora eu não faço ideia de onde está. Tchau.
            — Tchau meu bem. Linda sua casa. Mas parece de verdade essa flor. Tem certeza que ...
            — Tenho. Absoluta. Boa noite.
          — Boa – meu deus, que mulher chata! Nunca menti tanto em tão pouco tempo. E ainda vou ter que dá um jeito nessa panelada, heim? Aff! Minha vontade era rebolar no mato com depósito e tudo! Ah não, experimenta! Experimenta você! Ai Anna Karenina, tem horas que tu é tão antipática! que eu nem sei como eu te aguento. Eu é que não sei como EU te aguento. Pois eu sei. Sem essa Anninha aqui, meu bem, você não teria escapado nem da diarreia do primeiro ano de vida. Engraçadinha! Diarreia é o que eu vou ter se comer isso aqui... não, não vai ser agora que eu vou gostar de panelada. Experimenta, experimenta! Como você é besta! Então pronto vamos fazer um brinde!
            Troquei o refil da taça e fui pra minivrandinha assistir o entardecer. No céu, já dava pra ver dois ou três pontinhos brilhantes. Seriam de verdade ou de mentira? Que importa? Algum deles até poderia já nem existir e sua luz ainda viajando. Seria uma luz de verdade ou uma estrela de mentira. Ainda prefiro uma luz de verdade, embora em algum momento se possa fazer uso de uma estrela de mentira. Mas com parcimônia, claro! – ah não, não é possível que seja essa moça de novo!
            — Alô. Oi Clara! Já? Não, não. Desocupadíssima. Quando? Perfeito. Tô indo aí agora!
           



domingo, 21 de setembro de 2014

Horizontes

Depois de muitas semana sem novidades, o Balaio apresenta a crônica de uma mudança: Horizontes. Boa leitura.




Desde maio acompanhei a reforma para que ficasse tudo do nosso jeito, meu e das minhas possibilidades, ou seria da minha limitação financeira? Tanto faz. Tudo numa sequência pensada e repetida por cada um que me prestava serviço. Primeiro você põe o gesso, que pose vir com a colocação do piso frio. Depois, o piso de madeira, a primeira demão de pintura, a montagem dos móveis e a pintura final. Ah, e antes de tudo isso, as adequações das tomadas e interruptores. Sim, e adequações também da minha ignorância completa de que um apartamento novo é entregue faltando muitos ajustes. Finos e grossos. Tudo pronto e era a hora de mudar.
Contratei uma transportadora, que me ajudaria também na arrumação. Mesmo assim, uns dois meses antes comecei a arrumar caixas e mais caixas com os objetos mais queridos: livros, máscaras e pequenos souvenires das viagens. E foi aí que a mudança começou. A cada caixa fechada e identificada a casa passava a ser menos minha. Era mesmo uma desfiguração. Comprei um rolo gigante de plástico bolha e comecei a catar as caixas deixadas nas esquinas, pelos comerciantes do bairro, nos dias de coleta de lixo. Arrumar meus livros, carinhosamente, nas caixas, era divertido e acabava servindo para me desligar dos problemas da EACH. A decisão mais demorada foi a de escolher uma das transportadoras. Feito isto, estava tudo certo. Até já tinha conferido, uns dias antes, a faxina no ap novo. E na segunda, antes da data marcada, liguei pra transportadora e confirmei a contratação. Estava tudo no lugar. Ou quase tudo.
Uma amiga tinha me dito que se eu precisasse ela dormiria lá em casa para me ajudar com as últimas tarefas e estar comigo na hora da mudança. Só que ela não deu conta de terminar um trabalho e me deixou na mão. Aí tive que decidir o que deixaria de limpar e de arrumar na noite anterior e passar pro dia seguinte, mesmo. Não tinha outro jeito. Enquanto eu tentava não me desorganizar por causa da ajuda que não viria, o telefone tocou.
— Alô. Boa noite. Sim, é ela. Como vai? Tudo. Sim, está tudo certo, mas conversei com vocês hoje à tarde. Como não? Qual é a sua transportadora? Ahhh não querido, eu contratei a Horizonte. Não, não contratei a de vocês, não. Como assim? Nãããão, o que você tem é um pedido de orçamento. Não uma confirmação. Bem, então, foi bom você ligar para confirmar. Cancele, por favor. Por que não? O senhor pode ligar para eles e desmarcar, certo? – a conversa parecia surreal. Enquanto o moço de outra transportadora me dizia que eu tinha contratado o serviço dele e que àquela altura do campeonato não era possível desmarcar, porque os rapazes estavam em outra viagem e os telefones estavam fora de área, e que aquilo teria um custo e blá, blá, blá, eu ia me aperreando de um jeito... – Pois está bem, seu Joaquim. O senhor me manda os e-mails em que eu contrato o serviço e se isso aconteceu eu arco com esse custo, está bem? Boa noite.
            Pensei que não teria sono para gastar naquela noite e que poderia me dedicar à limpeza e arrumação, só que não. Estava exausta. Mas foi inevitável pensar que se eu poderia ter contratado duas transportadoras, também poderia ter contratado três. Valha-me deus! E se amanhã aparecerem dois caminhões na rua, minha nossa senhora! Essa possibilidade existia mesmo, porque o primeiro orçamento foi feito por um site e como eu estava tendo que resolver 7.452 problemas ao mesmo tempo, não seria muito difícil que eu tivesse contratado duas transportadoras. Enfim, peguei no sono.
            Já no dia seguinte, acordei antes do despertador e me organizei para estar pronta quando a campainha tocasse. E antes mesmo de me levantar já ouvi quando o caminhão chegou e os rapazes que desceram dele ficaram conversando na calçada em frente de casa. Gelei junto com o pensamento de que aquele poderia não ser o caminhão que eu tinha contratado. “Qual era mesmo o nome da empresa? Ação, Aline, não, Anninha, Horizonte, mulher. Ah, é mesmo. Horizonte. Horizonte.” Fui na pontinha dos pés até o quarto da frente espiar pelas frestas da janela pra ver se era o caminhão da Horizonte. Ufa! Nossa senhora! como é bom sentir alívio. Agora eu entendo um doido lá te Russas que vivia puxando os cabelos só pra sentir o alívio de parar. Nunca o horizonte visto pela minha janela tinha sido tão lindo. Tudo bem, tudo bem, mas isso não era garantia de que outro caminhão não viria.
            Bom, mas pelo menos o contratado estava lá. Pouco depois eu ouvia a campainha tocar e quatro homens desconhecidos entraram na minha casa. Essa foi a maior experiência de administração que eu já vivi. O bom é que já tinha muitas caixas prontas para eles se divertirem. Os móveis maiores que podiam já ser arrumados no caminhão iam sendo cobertos e deslocados. Nunca vi pessoas com tanta força, como aqueles caras. O seu Raimundo foi encarregado de arrumar meus utensílios de cozinha e ele era incrivelmente delicado com as taças. O Donizete era o mais forte e aperreado do juízo. Deus me livre! A loucura de tantas perguntas e demandas até me fazia esquecer da possibilidade de outra transportadora aparecer. Foi aí que a campainha tocou de novo. Será que eram Marília e Bianca?
            Não, não era. Outro desconhecido diante do meu portão e no horizonte atrás dele, um caminhãozinho de mudanças. “Me lasquei.”
— Dona Ana? Eu sou da Transporte Ação.
— Como você se chama?
— Marcelo.
— Bom dia Marcelo. Querido, deve estar havendo alguma confusão, mas eu confirmei com outra empresa.
— Mas a moça do escritório disse que estava tudo certo. Ela não ligou pra senhora ontem?
— Não, não ligou.
            Depois dessa conversa rápida ele se afastou para entrar em contato com o pessoal do escritório. Fechei o portão decidida a não me estressar com aquilo: eu pagaria o que fosse preciso e não me sentiria culpada. Era preciso entender que em meio a tantas decisões e escolhas, era possível, muito possível cometer enganos. De novo me lembrei do doido lá de Russas. Levei a mão direita até a nuca, deslizei os dedos pelo cabelo e puxei de levinho, depois um pouco mais forte. E aí senti o alívio do doido. Mal pude responder as últimas demandas dos meus ajudantes e já era chamada pela campainha.
            Lá fora, o mesmo rapaz de antes e agora também um homem mais velho e uma moça. Eram os envolvidos na mudança e a moça da arrumação. Ah, e a moça do escritório, pelo telefone, porque eu pedi que ligassem para ela, já que a cópia do e-mail que me apresentavam não dava indício nenhum de que eu tinha contratado o serviço deles.
— Bom dia.
— Olhe eu tenho como comprovar que a senhora contratou o serviço.
— Bom dia querida. Veja, pelo e-mail que me apresentam aqui, não tem não.
— Ou a senhora arca com essa despesa, ou eu vou acioná-la na justiça.
— Olhe querida, não me ameasse porque aí sou eu que posso colocar você na justiça.
— Eu não estou ameaçando, mas a senhora vai ter que assumir esse gasto, porque a blá, blá, blá, blá....
            Por um instante eu me desliguei daquela conversa. Puxei de novo meu cabelo, bem de levinho e voltei.
— Está bem, eu vou decidir o que faço. Bom dia pra senhora.
            Devolvi o telefone para o rapaz e me dirigi ao senhor mais velho, que depois eu soube era pai dele. Ele muito gentilmente me explicou que vieram de muito longe e que ficariam muito gratos se eu pudesse pagar a gasolina. Que deveria ter havido algum engano e que isso e aquilo. A moça também foi muito solícita. Aí acordamos o que seria dividir o prejuízo e assim, fizemos. Depois que eles foram embora já era mais de 9 da manhã e eu pensei que talvez nenhuma outra transportadora fosse mesmo aparecer. De novo o alívio. Lá dentro, a casa ia deixando de ser casa e passava a ser só casca.
— Quem aceita um café? – perguntei só por perguntar, porque o café era mesmo pra mim. Precisava me acalmar para não perder energia com aquela confusão. Inutilmente tentei encontrar um lugar onde não houvesse um desconhecido para tomar meu café em prece. Tudo bem. Tomei mesmo assim. Logo depois as meninas chegaram e eu pude me sentir mais segura para empreender aquele trabalho de Hércules.

            Graças a arrumação tão antecipada dos livros, às 11 e meia já estávamos a caminho da nova morada. Tão estranho sair de um bairro querido. Os sentimentos eram muitos e confusos. Até vergonha eu sentia por estar me mudando. Pode um negócio desses? Tempos depois, lá estávamos nós descarregando os móveis, as caixas, as malas, os objetos, tudo, na casa nova. À noite, quando as meninas foram embora, muitas caixas já estavam esvaziadas, muitos livros na estante, louças no armário e o espírito exausto, porém contente. Diante da mini sacadinha, um lindo botão amarelo, que subia lentamente pelo céu, me dava as boas-vindas. Boas-vindas à casa nova, boas vindas ao novo horizonte. 

terça-feira, 8 de julho de 2014

Creme Nivea

            Em época de Copa do Mundo a gente fica, sempre que pode, longe do computador. Mas hoje, pra comemorar a semifinal mais uma Crônica de Balaio!           


            No dia seguinte ao aniversário da Dona Rosa, a casa da tia Tota estava cheia. Eu e minha mãe, três das Antoninas e a Ionele e o Lúcio. E o Lúcio é uma das muitas exceções àquela máxima que diz que mulher fala mais que homem. Até a Ionele, que fala pelos calcanhares, precisa pegar senha pra falar, quando ele está. Pois naquela manhã não foi diferente. Quando me levantei estavam todos ao redor da mesa. Umas já tinham desjejuado, outras estavam terminando e o Lúcio falando, contando, dizendo, explicando. Ai ele foi até o quarto tinha dormido e voltou com uma sacola. Cada vez que a mão saía da embalagem trazia consigo um pacotinho colorido brilhante.
            — Esse é um presente ótimo! – ele se elogiava – Barato e útil! E igual, que é pra ninguém brigar.
            Eu dei risada com a cena e apesar de ter sido a última a ganhar, fui a primeira a abrir a lembrancinha. Era uma lata azul de creme Nivea. Ligeiro como quem rouba, aquela lembrança me trouxe outras: férias de julho... viagem em família para Juazeiro do Norte... casa do Marcos. Mal chegamos e meu pai logo inventou um desculpa para sair de casa: fazer um mercantil para colaborar com nosso anfitrião. E fomos eu, painho e Marcos. A cidade era muito maior que Russas. Tantas lojas, tantas casas. Eram tantas as paisagens novas, que só percebi que não tinha mais unha pra roer quando doeu o dedo. Pois é, eu tinha voltado a roer unha e começava a sentir umas dores de cabeço inexplicáveis.
            Tinha hora que os dedos ficavam tão ressecados que era necessário umedecê-los, aqui que fosse com saliva. Minhas mãos, que já completavam 11 anos, tinham voltado a habitar mais minha boca do que o resto do mundo. Até acho que vem dessa época minha loucura por hidratante para as mãos. Mas a saliva engana. De cara, ela umedece, para logo em seguida ressecar. O alívio só vinha quando eu usava os cremes de minha mãe.
            Quando chegamos no supermercado, eu me separei do bando e fui passear sozinha entre as gôndolas. Sempre gostei da arrumação dos produtos nas prateleiras. Paro na sessão de higiene pessoal, hipnotizada pelo mar azul dos produtos Nivea. Mas fui capturada especialmente pelas latinhas de hidratante. Tão lindas e pequenas, tão adequadas ao bolso de uma menina com mãos ressecadas. A primeira reação àquele desejo foi pegar uma e abrir. Mas não tive coragem de usar. Foi exatamente nesse momento que me surpreendi com meu pensamento de que eu poderia pegar aquela latinha. Tive tanta vergonha, que senti minhas bochechas mornas.
            Fechei a latinha contra mim mesma e a devolvi para a prateleira. Até pensei que estivesse livre da tentação. O problema é que eu não consegui esboçar nenhum movimento que me tirasse dali. “Já sei! Vou pedir pro painho! Esquece. Ele não vai nunca comprar isso. Mas eu vou pedir e insistir tanto, que... Não vai adiantar nada. É melhor pegar logo.”
            Contra a vontade de metade de mim, procurei meu pai. Ele já se encaminhava para o caixa. Talvez se eu colocasse no carrinho sem eles ver, desse certo. Fiz.
            — O que é isso, Anninha? – não respondi, apenas mostrei – Não, disso nós não precisamos. Devolva lá vamos embora. “Como não precisamos? Eu preciso e muito! Que que eu te disse? Eu te disse, não disse? ”
            Caminhei desoladamente lenta até a prateleira, decidida a devolver a desgraça da lata. Com movimentos automáticos coloquei e tirei a lata da prateleira um sem número de vezes. “Ah, anda logo, bota isso no bolso! Ninguém tá vendo e ninguém vai saber. Mas... mas se o painho descobrir? E quem vai contar? Eeeeu que não vou.” Enfiei a latinha no bolso da bermuda e vi milhões de olhos nas prateleiras, no teto, no chão, em todo lugar. Os de Deus só apareceram depois.
            Quando cheguei ao caixa, meu pai já passava os últimos produtos. Passei por trás dele sem nem olhar para a moçado caixa. Vai que ela tinha a visão além do alcance?! Com a mão disfarçando o volume redondinho no bolso, entrei logo no carro e fiquei quieta. Mas só por fora. Porque por dentro eu sentia uma Amazônia de sentimentos: culpa, euforia, satisfação, orgulho, medo, tudo! À noite quando fomos dormir dei um jeito de ficar com a latinha nas mãos. Ali a empolgação já tinha passado e eu me corroía pela frustração de não poder contar pra ninguém, mostrar pra ninguém, compartilhar com ninguém! De que tinha adiantado? É, realmente o crime não compensa.
            — Vixe menina! Pra onde tu foi, heim?
            — Eita Lúcio, tão longe que tu nem imagina. Essa lata de Nivea me levou pra uma visita que fizemos a um primo, em Juazeiro. Lembra mãe?

            — Lembro sim. Aliás, lembro também que tu andava pra cima e pra baixo com uma latinha de Nivea. Quem foi que te deu?

terça-feira, 6 de maio de 2014

Antônia, Tota, Toty

Mais uma Crônica de Família para encher o Balaio de delicadeza e ternura.  

            O ano era o de 1937. Isso mesmo. O ano em que Getúlio Vargas outorgou a nova Constituição, implantando a ditadura do Estado Novo. Também foi nesse ano que a rádio Tupy entrou no ar e Orlando Silva gravou Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro - “meu coração, não sei porque, bate feliz quando te ver...” Ainda naquele 37 foi inventada a caneta esferográfica, pelo húngaro Ladislao Biro e a primeira fotocopiadora foi patenteada nos EUA. Muitos ganhos. Mas foi este mesmo ano que o Brasil perdeu Noel Rosa. Pois é. O país perdia um ícone na música e eu ganhava uma tia. Quer dizer, ganhar não ganhei, porque ali eu ainda nem era. Mas que foi um ganho foi. No dia 22 de setembro de 1937 nascia Antônia Teixeira, que jamais seria chamada pelo nome de batismo e sim por uma apelido, que depois eu soube, é destinado aos Antônios e Antônias: Tota. Ou no caso dela, Toty. É assim que ela assina seus quadros e textos.
            Não foi por caso que comecei a conversa com dados históricos. Tem tudo a ver com ela, que ainda muito moça se formou professora na Escola Normal em Crateús e por anos a fio ensinou Estudos Sociais. Começou ensinando na Escola da Dona Rosa Morais, prima legítima de sua mãe e sua alfabetizadora. Depois foi professora no Colégio Pio XII, cujo proprietário era o tio Zezé, que antes era o Monsenhor Bonfim e depois foi o companheiro cansado da tia Joaninha.
Nascer no ano de implantação do Estado Novo foi só uma tolice da História. A Toty sempre demonstrou ter liberdade e independência. Tanto, que casou tarde e com um homem mais novo que ela, o que era bem incomum naquele tempo. Acho que minha tia sempre teve a liberdade do artista e a elegância do esteta. E por causa dessa história toda ela é sempre requisitada para escrever os discursos, as cartas, as falas bem articuladas, com a medida certa de emoção, que tanto enobrecem a invenção de Biro.
Agora em outubro, a cidade comemorou o centenário de Dona Rosa Morais. Claro que a Toty não só participou da comissão organizadora, como preparou lembranças delicadas, dedicou-lhe um texto, como inevitavelmente seria, e junto com outros ex-alunos ainda cantou na lá frente. Dos nove ex-alunos, que vi lá no palco, um terço era de Azevedas: Toty, Joaninha e Madalena. Todas organizadoras, cada uma no seu reino. E ela, a Toty, é a senhora das pequenas coisas, dos detalhes e da mansidão. Também é a desenhista oficial das árvores genealógicas. A primeira, ela fez, se não me engano, na comemoração das Bodas de Diamante dos meus avós. Fez treze. Uma para cada filho e outra pro vovô e a vovó. Dá para imaginar quantos nomes precisavam caber numa árvore de doze galhos? Mas com a letra dela coube! E a ideia foi sendo sofisticada.
A última versão da árvore ela preparou para entregar a cada irmão durante a celebração dos cem anos de nascimento de seu pai. E não foi desenho não. Cada irmão recebeu um galho e uma caixa de papelão bem bonita, com a foto dos pais sobre a tampa e sua própria no verso. Dentro, vinham pequeninas molduras 3 x 4, feitas de biscuit com a foto de cada um daquele galho. E o tronco, sobre a mesa bem arrumada, só esperando os galhos revividos carregados de fotistórias penduradinhas. Aí cada filho, em ordem alfabética de nascimento ia incluindo seu galho. O mais divertido era ouvir os “agora tu Zé, agora a Joaninha, é tu Socorro, cadê a Madalena? é a vez dela...” Foi uma festa tão linda, que os olhos todos ficaram sorrindo.
Quando crianças era na casa dela que ficávamos com minha mãe durante as férias em Crateús. A casa, as roupas, o universo dela inspiravam a elegância e a atmosfera da artista, que eu imaginava. O desenho de sua casinha com tantas plantas, baixinha, aconchegante, me dava sempre a sensação de estar entrando num mundo de outro mundo. Ainda hoje eu tenho um não sei quê de excitação com o veludo e o dourado. Quando ela começou a reforma nessa casa, foi morar na casa da Coronel Jiló, onde morou com sua avó durante a infância. Não só ela, mas cada um que ia completando seus sete aninhos, saída do Curral Velho, que ficava a uns 20 quilômetros da cidade, e ia morar com a Mainha, para estudar. Era assim que eles chamavam a avó. Quando a tia Tota morou lá, pela segunda vez, o sobrado, que durante o ano era o quarto do Tino, virava um albergue nas férias! Mas diferente de um albergue, lá o dia começava igual para todo mundo, que estivesse hospedado, e bem cedinho.
O sol ainda limpava a remela dos olhos e lá ia a tia Tota subindo a escada de madeira, seguida pelos sons dos próprios passos, com uma bandeja carregada de copos da Tupeware cheinhos de leite com nescau. Ela nos acordava com aquela voz mansa e entregava o copo. A nós cabia tomar o leite no gute gute, praticamente dormindo. Limpávamos o bigode de leite com a borda do copo e nos deitávamos de novo. Sua marca registrada. Duvido que haja um primo ou prima que não lembre disso! Mas ruim mesmo era pro coitado do Júnior, hoje seu genro, que quando namorava a Jô e se hospedava por lá, tinha que tomar o bendito desjejum sem suportar leite. Mas isso ele só confessou outro dia. Essa é a Dona Toty, que nem a mais avançada fotocopiadora vai conseguir reproduzir!
Conhecedora do mundo através dos livros, só há pouco tempo teve a oportunidade de desbravá-lo com suas próprias pernas. Foi depois que a vovó decidiu que já estava na hora de encontrar meu avô, que as Azevedas resolveram ganhar esse mundão de meu Deus e começaram a fazer viagens, muito simples para alguns, mas para nós, épicas! E foi na primeira viagem delas para a Europa que ela ganhou o título de MC Toty. Sendo ela a senhora das coisas meticulosas, precisas e cuidadosas não poderia jamais ser a senhora da ligeireza. Isso fica pra Socorro ou pra Madalena. E foi aí que durante os passeios em Lisboa, sempre se estava a esperar por ela. De certo, encantada com tudo aquilo que via. Eu faria o mesmo: me demoraria diante da mais simples visão do velho mundo. Claro que isso virou motivo de chacota entre as irmãs.
— Cadê a Toty? – perguntava uma.
— Ah, a mata capim deve tá examinando a... – respondia a Socorro aperreada.
— E Toty, heim, cadê? – perguntava outra.
— Ah, a mata capim... já viu! – respondia a Socorro gesticulando com se imitasse a lentidão da irmã.
O MC vem de mata capim que é tudo que se demora tempo suficiente num lugar a ponto de matar o capim sob seus pés. Aí o Brenno que é gaiato que só cunhou o novo apelido moderno pra tia: MC Toty. Isso virou a razão das melhores rinchadeiras entre elas. Sim, porque se há uma habilidade que é de todas é a risada. Como elas se divertem quando estão todas juntas. Pois é, mas a Toty não é só esse anjo de candura, não.
Nessa colheita de histórias sobre a família da minha mãe fiquei sabendo de uma espetacular. Foi a mainha que me contou. Era uma época do ano de festividades religiosas e meus avós tinham ido à quermesse no Santo Antônio, um vilarejo mais ou menos perto da fazenda. Elas, que têm apenas um ano e oito meses de diferença, tinham ficado em casa com os irmãos. Aquele tempo o maior cuidava do menor, não importando o quão pequeno fosse o maior. Acredito que minha mãe tivesse seis e ela quatro ou cinco anos. O que minha mãe me disse foi que como ela, Vilanir, era a mais velha e portanto, tinha cuidado da irmã, ganhou de presente a boneca de celulose que meus avós deviam ter ganhado nas brincadeiras da quermesse. Pois a Toty, num ato de fúria infantil, não teve dúvida e jogou a pobre boneca no fogão a lenha. A mainha conta que numa lambida só o fogo levou a bonequinha. Aí deve ter sido aquele chororô e briga. Mas isso eu só imagino porque ela não contou nada. E o melhor é que a própria Toty não se lembra do episódio. Mas tem nada não, tem a Vilanir pra contar.
            Hoje elas devem se encontrar mais tarde lá em Crateús, pela triste ocasião do velório da Marizinha, que foi criada junto com elas. Vão começar tristes e vão chorar, como de costume, mas sempre terminarão dando risadas das histórias das quais irão se lembrar para manter viva a memória da amiga. A Dona Toty, com certeza, está preparando alguma homenagem. Porque ela é assim: a senhora da generosidade que há nos pequenos gestos de carinho. A senhora por quem meu coração vai sempre bater feliz e meus olhos sorrir quando a encontrar. E eu sei porque.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Trinta e cinco centímetros de rio

Bom dia, bom dia! Essa não demorou tanto, não é? Então, vou direto ao assunto. Boa leitura de mais uma Crônica de Balaio!


            Quando eu nasci, minha mãe já era costureira. Já vivia mexendo com panos, e como dizia o tio Lisboa, “coisa mais estranha, essa que tua mãe faz. Ora, por quê?, porque ela pega um pedação de pano inteirinho, aí pinica, pinica, pinica e depois sai costurando tudo de novo! A gente pisca tem um pano, pisca, ai um monte de retalhos, pisca de novo, vê uma blusa. Coisa mais estranha, essa que tua mãe faz.” Pensando assim, pode até ser. Mas é linda a arte da costura e eu me divertia demais com os instrumentos de trabalho da mainha. Os botões eram os meus favoritos. Não será que toda criança gosta de brincar com botões? E a cada visita da tia Lourdes, ou de qualquer outra freguesa, o ritual era o mesmo: pegar os cortes de tecido, elogiar ou falar mal do gosto da freguesa com a freguesa, olhar os modelos, debater, opinar e logo em seguida tirar as medidas.
            Aquilo pra mim era um mistério. Porque algumas medidas eram redondas: cintura, quadril e busto; outras eram retas: largura dos ombros, comprimento da saia, altura da pala, tamanho das mangas, mas todas, sem exceção, eram tomadas com sua trena e viravam centímetros, invariavelmente. Ela tinha um chamego com aquela trena. Quer dizer, ela tinha um chamego com todas as suas ferramentas de costura ou qualquer outra. Sim, porque lá em casa quem consertava os eletrodomésticos, fazia os pequenos reparos, desentupia, pintava e bordava era a mainha. Mas a trena, não sei se por sua versatilidade, era usada por outros moradores da casa, que não raro, ou melhor, frequentemente, para não dizer sempre, a deixavam em qualquer outro lugar que não a gavetinha da máquina. A mainha ficava possessa, como ela mesma dizia. Quando a encontrava, dobrava em quatro e surrava a coitada da mesa, que não tinha culpa nenhuma no cartório. Só se ouvia era aquele estalo seco, que ia de taaá a tiii, dependendo de quanto da trena pegava na mesa.
            A trena realmente era uma versatilidade em pessoa, quer dizer, em objeto. Era também com ela que a mainha registrava o nosso avanço vertical, o que viria a se repetir naquela típica quarta-feira de outono, se é que há outono na Caatinga cearense. Mamãe tinha ido à rua comprar uns aviamentos para as últimas costuras e chegava com uma trena nova, bem linda. De um lado, toda amarelinha com números e marcações em preto, e do outro pedacinhos alternados e iguais em branco e vermelho, com umas chapinhas de metal arrematando as pontas. Ela devia estar ansiosa para usar logo a trena. Tanto, que mal entrou dentro de casa, chamou logo os três. A sequência, claro, era a de costume: Anna, Júnior e Ney. Sempre era uma diversão, só que naquele dia foi especial. Eu nunca me senti tão mais alta que meus irmãos. Trinta e cinco centímetros a mais! E a mainha ainda me mostrou na trena nova o que significavam 35 cm. Trinta e cinco novos centímetros, que não saíram mais da minha cabeça.
            Como eu era grande! Dali em diante passei a olhar o mundo a partir dos meus 35 cm a mais. Peguei escondida a trena velha e saí com ela no bolso do calção feito com o retalho de uma saia da tia Lourdes. Mesmo enroladinha e bem apertada, parecia que eu carregava uma lata no bolso. Primeira parada, o quintal. Mas no caminho, encontrei o Hafles e foi inevitável. Quarenta centímetro de cachorro sem rabo. Depois o Túlio: 25 cm de gato sem rabo. Eles não me deixavam esticá-los pela orelha e pelo rabo para ter uma medida mais exata. Que droga!, mas tudo bem, eu não entendia mesmo porque eles tinham que ter rabo?. Quando cheguei no quintal, aí o desafio era ainda melhor: medir as árvores. Foi preciso fazer malabarismos, aliás, todos inúteis, para ter uma medida ainda que aproximada delas. A única que consegui fazer bem feita foi a dos caules. Foi uma euforia, quando percebi que tinha entendido como as medidas redondas viravam centímetros! Corri até meu quarto e voltei com um bloquinho e um lápis. Ora, era preciso anotar tudinho como a mamãe fazia. Depois fui meditar sobre os números e comparar aos meus novos 35 cm. Estava conseguindo medir até as nuvens! É bem verdade que eu tinha que ser muito rápida, mas conseguia me virar. Nada escapava à minha super trena. Nada. E eu estava realmente determinada a medir o mundo e todo mundo. Quando a trena não podia aparecer em público, eu tirava a medida em palmos e depois os fazia caminhar sobre ela para então saber o tamanho do objeto medido.
            Medir a natureza fazia com que eu me sentisse A cientista. Certamente o que eu pudesse avaliar com minha trena estaria ao meu alcance, ou ao alcance da minha compreensão. E tudo, absolutamente tudo podia ser medido por aquele instrumento mágico. Eu estava bem segura disso. Não por acaso, ela ia comigo pra tudo que era lado. Colégio, igreja, rua, sítio, mercearia, todo canto. Um dia, fiquei chateadíssima porque choveu e, como eu estava gripada, minha mãe não me deixou tomar banho com os meninos. Perdi a chance de medir a chuva. Até anotei no bloquinho: chuva, dois pontos. Quando percebi que aquela chuva não seria mesmo medida, circulei um espaço depois dos dois pontos para destacar bem que ali viria uma medida. Ai o tempo passou, eu fiquei boa e a vida novamente desafiaria minha capacidade medidística.
            Naquela altura do ano, o rio já estava mais baixo e suas águas mais tranquilas e limpas. Quando o painho disse que, no sábado, íamos passar o dia no rio, foi um alvoroço! Fiquei só imaginando tudo de novidade que teria pra medir. Vixemaria, minha lista de medidas iria crescer demais! Logo chegou o sábado e nós chegamos ao rio. Nem bem desci do carro já estava procurando as novas figurinhas que ampliariam meu álbum. Pedras, plantas rasteiras, restos de madeira, casa de caramujo, tudo.
— Anninha, minha filha, não vem pra água não? Tá uma delícia de quartel! O que é tu tá fazendo? – gelei quando pensei que minha fosse brigar por causa da fita métrica – Bem que eu senti falta dela... – reagi com um sorrisozinho amareeelo... e sem querer contrariá-la parei com minhas medidas e fui pra água. Estava mesmo divina! Eu, meus irmãos e água brincando. Pulei, nadei, mergulhei, corri e num estalo de pensamento senti de novo aquela sensação de euforia. E se embaixo d’água as coisas tivessem outras medidas? Não resisti.
Sai da água e fui buscar minha trena. Por um segundo, pensei se ela resistiria a um banho de rio. Mas a resposta veio com ela já mergulhada em minhas mãos. Tentei inutilmente ficar parada na correnteza fazendo de minhas pernas um motor. Além da visão ficar estranhamente turva embaixo d’água, nãos seria possível confiar naquelas medidas tomadas assim de tão mal jeito. Emergi. Com os olhos ardendo de tanto ficarem abertos na água, fiquei parada só escutando o barulho que o rio fazia quando passava por mim. Eram palavras bonitas com bê, éle, às vezes xis e as vogais quase todas. Uma música linda de morrer. As mãos ainda estavam embaixo d’água quando as separei com o polegar da mão esquerda no 1 e o da mão direita no 35. Ai a pergunta: quanto rio será que cabe em 35 cm? Fiquei de pé deixando as mãos ainda mergulhadas. Não, assim não dava pra medir o rio. Soltei o 1 e sacudi as mãos e a trena como se quisesse secá-las. Sei lá eu pra quê. Voltei a segurar a ponta do 1 com a mão esquerda e deslizei a direita desde o 10 até o 35 e pousei a trena sobre a água. Mais perguntas foi o que resultou: pra que lado fica o 1? O 35 segue a correnteza? Devo medir de lado ou no comprido? Essa é uma medida reta ou é das redondas? Faço um círculo com a trena e vejo quanto rio passa dentro dela.
Nenhuma das respostas me agradava e eu fui ficando impaciente. Puxa vida, isso nunca tinha acontecido! Como assim, eu não sabia medir 35 cm de rio? Acho que quem mede rio mede fora. Não, não, quem mede rio deve ter um medidor de rio. Ou talvez, mede a areia em baixo d’água, ou das margens. Mas quem disse que a areia do fundo é rio? Fui ficando ainda mais irritada com aquelas respostas e perguntas que não me diziam nada. Será que eu pergunto à mainha?
— Maaaaaãe! como é que a gente mede rio? – ela riu e eu achei que não viria uma reposta.
— Ah Anninha, minha filha, medir um rio... cada um mede o rio como pode, como sabe.
— Mas eu não seeeei.
— Então inveeeente! – eu adorava quando minha mãe me dizia pra inventar.
            O jeito foi me tranquilizar e ficar puxando a trena pela água. Eu, trena e água brincando, enquanto eu inventava um jeito de medir 35 cm de rio. Foi aí que num descuido a trena nadou da minha mão e se enfiou na correnteza mundo afora. Uma mão quis tentar pegá-la, mas a outra não. Um olho quis ficar triste, mas o outro não. E eu fiquei ali paradinha, esperando que alguma ideia me salvasse daquele desolamento. A trena dançou num redemoinho e depois seguiu faceira seu caminho, quer dizer, seu aguinho. Me diverti com a ideia de aguinho. E como as ideias são magnéticas, uma chama a outra, e além de tudo elas não gostam de ficar sozinhas, logo veio aquela que me disse que pra medir um rio é preciso nadar com ele. Então estava explicado, minha trena estava medindo o rio. Pena que essa medida eu não poderia anotar no meu bloquinho. Daquele rio em diante, passei a conviver com uma ideia que só veio com meus novos 35 cm: parece que na vida há medidas que não podem ser registradas e medições que não podem ser controladas.
            Minha mãe, que quando eu nasci já era costureira, observou aquilo tudo com a atenção de quem descobre o direito e o avesso de um corte de anarruga. Na semana seguinte, ela voltou à rua. Chegou em casa, tomou seu banho e depois do almoço, sentou-se à máquina para continuar o serviço do dia anterior. Mas nada de se ouvir aquele barulho, tão familiar, da máquina juntando pedaços. 
— Filhaaa! Venha cá.

— Senhora – sem dizer nada, ela me entregou uma trouxinha de tricoline com estampa de gatinhos amarrada com uma fita linda – Taqui pra você continuar fazendo suas medidas – agradeci com um abraço e um beijo e voltei pro dever de casa, já mirabolando as próximas medidas. Ligeirinho começou-se a ouvir a máquina. Não sei que onomatopeia escrever, para descrever bem o barulho da máquina de costura da minha mãe. Então é melhor não tentar. Melhor é deixar que no pontilhado das próximas linhas, se escute o barulho da costura -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Será que era possível medir o barulho daquele estranho ofício de minha mãe?

domingo, 30 de março de 2014

Quem escreve o que?

Queridas leitoras e leitores, mais uma Crônica de Balaio, aliás que acabou de sair do forno. Boa leitura para começar bem a semana.


                Nunca pensei em escrever sobre escrever, mas a última crônica da Neila foi inspiradora. Mesmo assim ainda havia o problema: escrever o que sobre escrever? Ai volta aquela hipnose da página em branco, da tela em branco, da mente em branco. Nessas horas, me levanto, faço um café, ou um chá, saio do campo de visão da página. Tento me livrar dela e arejar o quarto das ideias, pra ver se elas resolvem aparecer. E olha que em geral funciona, viu? Já sei! Que tal escrever sobre como eu escrevo?
— Uau! que grande ideia. Imagina como vai legal pras pessoas ouvirem essa crônica.
                Isso é uma ironia, ou ...
— Meu deus, é claro que é uma ironia! O que pode interessar à pessoas no modo como tu escreve? É muita empáfia, heim!
                É mesmo né?
— É. Aproveita que tá no começo e muda de tema. Já!
Será? Mas sobre o que eu escrevo?
— Sobre o que você gosta de escrever?
                Na verdade, sobre qualquer assunto. Tanto gosto de pesquisar para desenvolver bem um tema, como gosto de inventar uma situação. Mas isso eu até que tenho explorado pouco nas minhas crônicas.
— O que, a invenção?
                Unrum. É... tenho escrito sobre personagens da minha família, memórias de infância, sobre algum assunto específico que dê vontade. Aí essa semana eu quis voltar um pouco pros temas.
— E escolheu logo um que não te dá um tema concreto?
                Mas dá um conflito..., que você nem imagina!
— Então, pronto. Desenvolva!
                Era o que eu queria. Mas não consigo pensar e nada suficientemente legal.
— Ah para com isso, Anna Karenina. Começa. Escreva e deixe comigo.
                Como assim “deixe comigo”? Eu não posso simplesmente sair escrevendo por aí, quer dizer, por aqui, qualquer coisa! Vixe... tá vendo? Escrevi “coisa”. Viu como se eu não pensar o negócio desanda e fica sem pé nem cabeça?
— Sabe qual é o problema? É que tu pensa demais e escreve de menos. Se tu usasse metade do tempo que gasta pensando, pra escrever, tenho certeza que em todas as aulas teria um texto. Já teria dominado melhor a crônica e quem sabe estaria escrevendo as histórias infantis. Ou tu já esqueceu que o que tu queria era escrever pra criança?
                Não, claro que não!
— Então, tá esperando o que?
                Como assim? Tô esperando... esperando o Gílson dizer que já posso escrever contos.
— E se ele não disser nunca?
                Ai, você faz cada pergunta!!
— Pois é, faço mesmo. Aliás, não foi tu que disse uma vez que pra escrever uma crônica era preciso descobrir quem tu é, pra poder ser tu mesma? Pois pronto. É por isso que eu pergunto.
                Pra eu descobrir quem eu sou?
— Ahhhh... meu deus... Sim e não. Sim, se tu te referes a quem és escrevendo. Gostou da conjugação? Responda sem falar. E não, se tu te referes a quem és em todo o resto. Claro que eu não tenho a menor dúvida de que essas dimensões se misturam. Mas essa mistura não me interessa.
                Como não te interessa?
— Simples assim: não me interessa. O que realmente me interessa é o teu texto. Por isso é que eu digo pra tu parar de pensar tanto e escrever, escrever, escrever. Comece que eu dou conta do resto.
                Mas você não acha que tá muito independente, não?
— Agora deu, pois se essa é minha natureza, queridinha. Vai dizer que tu nunca prestou atenção que os textos mais legais são aqueles que se escrevem sozinhos? Não sem trabalho. Mas quase sozinhos...
                Hum.
— Hum o que, besta? Não tem coragem de admitir?
                Mas eu que tenho as ideias, eu que penso como entrar e sair de um conflito! Não você.
— Tu que pensa!
                Eu que penso mesmo! Se eu quiser, paro agora com essa conversa fiada e dou outro rumo!
— Ah é? quero ver. Tente sair dessa. Mas cuidado! Cuidado pra não perder o fio, pra não deslizar na concepção e deixar o leitor feito besta se sentindo enganado. Vamos, quero ver. Me dá só um exemplo.
                Ahhhhhh... eu poderia... acorda de um sonho. Pronto.
— Ui! Ainda bem que tu não gosta de lugar comum, né? Imagina se gostasse.
                Pior que é mesmo, né? Hum... e se acabasse a tinta da caneta, ou a bateria do notebook? Aí eu não poderia continuar nesse palavrório.
— É... nem nesse e em nenhum outro. Teu texto ia terminar antes do fim!
                E se..........................
— E se nada, menina! Para de pensar e escreve. Escreve. O texto concreto é o escrito, não o que fica boiando nessa cabecinha...
                Sem adjetivos ofensivos, tá bem? Seja boazinha, vá?
— Desculpa... tudo bem, tudo bem vou colaborar. Afinal, eu sou a maior interessada que você escreva bem e se divirta escrevendo. Porque se uma coisa eu não sou é penico, minha filha. Lembra que um tempo atrás tu quase via o desenho do teu texto? Lembra? Tu tava usando as palavras, os sinais, a língua do teu jeito. Aquele sim era o teu texto. E cadê? Onde se perdeu? Que uma pista? No pensamento, no pensar demais. Parece que vocês quando pensam demais substituem o fazer pelo pensar e sentem que já fizeram e na realidade não fizeram nada! Pensar demais te faz fazer de menos.
                Mas eu queria escrever história infantil!
— Escreve ora! Escreve crônica e história infantil. Melhor, escreve as duas em uma! Inventa crônicas em que tu tenha que te colocar como criança!
                É... eu andei tentando, mas é muito difícil, dá muito trabalho.
— Dá muito trabalho porque além de trabalhar o texto tu perde energia pensando demais. Quando chega no texto já tá cansada mesmo. Mas diz aí, que mais?
                Ah, já disse, gosto de escrever sobre minha família, minhas origens. Sobre as coisas da minha terra.
— Aí é que tá. Se tu parar de enrolar e escrever tu não vai escrever sobre a tua origem, tu vai escrever com a tua origem. Tu não vai escrever sobre a tua família, a tua terra. Tu vai escrever com a tua terra. Percebe como é completamente diferente? E quando se escreve com a essência o texto fica interessante. Alguém já disse que pra falar com o mundo é preciso escrever sobre sua aldeia. Eu substituiria o sobre pelo com. É isso. Tu precisa só enfrentar o conflito natural da escrita: o verbo. Então, para de pensar e vai escrever.
                Mas... mas...
— Não tem mais nem menos. Vá escrever. Aliás, outro texto, porque esse aqui eu dou por encerrado.

               



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

De gêmeos

           Mais uma crônica de balaio para divertir e começar bem a semana. Boa leitura!


           Amanhã é aniversário dos meus irmãos. Sim, eles são gêmeos. Não, não. São muito, na verdade, totalmente diferentes. Gêmeos bi vitelinos. Acho que isso foi uma das primeiras palavras do jargão biomédico que eu aprendi. Claro, e sempre foi muito necessário, pelo menos para mim, porque meus irmãos nunca, em momento nenhum, nem mesmo dentro do útero de nossa mãe, se pareceram. Um é loiro dos olhos verdes e o outro é moreno dos olhos azuis. É, e os danados são lindos! E amanhã eles completam 38 aninhos. Meus irmãozinhos mais novos! Hoje isso já não faz muita diferença, mas já fez. Então vamos ao início. Entre o meu nascimento e o deles, mamãe perdeu um filho que nasceu e logo morreu. Não pude avaliar muito o estrago que isso causou em nós, principalmente em meus pais, mas posso imaginar. Num daqueles dias encontrei minha mãe chorando e disse a ela pra não se preocupar que o papai do céu mandaria outro. E mandou mesmo. Mandou dois!
            Dose dupla de cuidado, fraudas, sapatinhos, roupinhas e leite. Tanto, que eles precisaram de uma ama de leite. Painho conta que ele secava as fraudas no ferro de passar, porque não dava tempo enxugarem sozinhas, porque pra completar eles nasceram num janeiro de bom inverno. E quem nasce num inverno bom no sertão já nasce abençoado pela natureza. Outro dia uma amiga perguntou à mamãe como tinha sido criar dois de uma vez com mais uma pequena e ela disse assim, depois de suspirar profundamente: minha filha... eu venci. E deve mesmo ter sido uma vitória. Porque só sabe o que são gêmeos, quem convive com eles. Eu coitadinha, tive que assumir meu papel de irmã mais velha muito, muito cedo. De manhãzinha, a mamãe colocava a dupla em seus respectivos carrinhos xadrez na calçada para pegar sol. E quem é que ficava cuidando deles? A irmãzinha aqui. Pobre criança! Já aos três aninhos eu me lastimava reclamando que aqueles meninos só me davam trabalho!
            Uma vez, enquanto eu pastorava aqueles dois ratinhos miúdos, nascidos de 8 meses, fiquei curiosa com aquelas bolinhas de cores diferentes. Não, não, as bolinhas a que me refiro eram os olhos! Por sorte o papai chegou antes que meu indicador curioso provocasse qualquer dano mais sério. Eles nem choraram! E olha que o Ney era chorão. Todo dia depois do almoço, a mamãe nos botava pra descansar. Na verdade o descanso era pra ela, porque nós descansávamos praticamente obrigados. Nessa época ainda morávamos na casa velha. A porta do nosso quarto dava para a sala de jantar onde ficava a televisão e a máquina de costura da mainha. Eu acordava e ia pra sala. O Júnior acordava e ia pra sala. O Ney, bom, ele acordava caminhava até o portal do quarto, colocava a cabeça olhando pra sala e chorava. Ninguém entendia porquê! Aí a mamãe chamava ele pacientemente: venha cá meu manteiga derretida...
            Diz a lenda que ele era manhoso porque durante o parto quebrou o braço. E foi mesmo. Saiu da sala de parto já com o braço no gesso. Mas parece que ele gostou foi muito da ideia porque depois quebrou o outro braço e as duas clavículas. Nas fotos de criança, de tempos em tempos lá está o Ney com gesso. Ele era o preferido da tia Lourdes. E o Dudu da tia Artemis. Dudu era como o Ney chamava o Júnior. O Ney falou primeiro, andou primeiro, nadou primeiro, andou de bicicleta primeiro, mas quem nasceu primeiro foi o Júnior. E talvez por isso, por ser o irmão mais velho, ele sempre foi mais cuidadoso com os ossos. Em compensação no dia em que ele quebrou o primeiro e único, deu tanto trabalho... Outro dia da nossa infância, numa daquelas viagens que o papai e a mamãe faziam até Fortaleza para fazer o mercantil, nós passamos o maior medo com uma chuva de trovão. Não, não ficávamos sozinhos, mas a mamãe era nossa coragem. Quando ela chegou, o Júnior correu, agarrou em sua perna e começou a bater nela chorando e dizendo que estava feliz porque ela tinha voltado e que estava com muita saudade. Isso devia ser o jeito dele de exercer a responsabilidade de irmão mais velho.
            Às vezes eu fico pensando que gêmeos devem ser pessoas menos propensas à solidão. Não parece? Afinal eles foram gerados juntos, nasceram juntos, cresceram juntos. Eles não sabem o que é um dia de vida sem um irmão. Por outro lado, a perda de um irmão gêmeo deve ser sentida duas vezes. Mas essa hora vai demorar. E eu, graças a Deus, fiquei bem pouco tempo sem eles. Só que por causa deles, quando criança eu sonhava em ser adotada só pra ter uma irmã gêmea em algum lugar. Olha que loucura!
Gêmeos também devem ser pessoas que se incomodam muito pouco, ou quase nada quando chegam numa festa e encontram alguém vestido igual. Eles devem pensar que é só mais um irmão. Afinal, estão acostumadíssimos a ter ao lado um outro ser vestindo um modelo igual de cor diferente ou pior ainda, nada diferente. A mamãe, que sempre foi uma mulher sábia, variava uma coisa ou outra e mesmo sem saber do meu desejo de ser gêmea também, me incluía de alguma forma, compondo modelitos para trios. Mas isso eu só vejo hoje. Era importante me sentir parte.
            E a vida foi ficando mais divertida pra mim quando passamos a brincar os três juntos. Apanhamos juntos também. O Ney era quem tinha as piores ideias. Já eu e o Júnior executávamos. Um dia a brincadeira era enterrar o Ney. Vivo, claro! E como o objetivo não era mata-lo tínhamos que criar um jeito dele ficar respirando embaixo daquela milanesa de terra. Foi também nesse dia que apanhamos os três de colher de pau. Eu a primeira, como de costume, depois o Júnior e por último o manteiga derretida. A sequência era sempre: Anna, Júnior e Ney!!! O Júnior não chorava nunca, o Ney começava antes mesmo de levar a primeira palmada. E eu, se o Júnior não chorava, eu não podia nunca dar o braço a torcer! Sim porque o Ney não mobilizava muito meu espírito ruim, não. Mas o Júnior... Implicávamos sempre um com o outro. Como a gente brigava! Certamente porque somos muito parecidos e nos irritava olhar pro outro e ver um espelho.
            Mas a mamãe não se apresentava só para os atos punitivos, não. Ela nos deixava nadar na montanha de roupa suja esperando que a dona Lúcia chegasse para buscar a trouxa, nos fazia ajudá-la a lavar área lá de trás botando sabão no chão, onde escorregávamos de barriga, de costas, de todo jeito. Depois ninguém reclamasse dos arranhões incontáveis. E ela também pregava suas peças na gente! Quantas vezes elas não nos deixou, os três abestadinhos, sentados no sofá com um dos dedos indicadores no umbigo? Pra quê? Essa invenção dela parecia mais uma garrafada dessas que se encontra nas feiras nordestinas, que serve pra tudo, sabe? Pois é. O dedo no umbigo servia para engrossar e fazer a chuva demorar, já que não podíamos tomar banho nos primeiros pingos, e para fazer a televisão voltar ao ar, quando o que aparecia na tela era aquele chiadinho clássico das TVs analógicas. Ê dona Vilanir... quanta sabedoria, não?
            A rua era nosso domínio, o quintal um reino, as idas de bicicleta à escola uma jornada de heróis. E na escola era legal ser a irmão dos gêmeos. Quando eles estavam na alfabetização, eu já me sentia uma grande irmã mais velha. Na mesma manhã fui buscar o Ney na diretoria e salvar o Júnior. A ida à diretoria especificamente por aquela razão me dava uma sensação de... como é? autoridade... não, respeito. Isso. Caminhei até a sala da Irmã da Graça me sentindo RESPEITÁVEL. Foi ótimo. Minutos depois sou convocada a atravessar o colégio para salvar o Júnior que apanhava de um menino bem maior que ele. Famoso aquele peste. Batia em todo mundo, mas no meu irmão, não. Encharcada com a boa sensação de respeitável, me entreguei à tarefa. Enquanto a respeitabilidade começava a se transformar em uma pequena arrogância e caminhava pisando duro o chão. Aí veio a vida e eu pisei na areia que recobria o terreno até as salas da alfabetização, que ficavam mais afastas. Tinha chovido muito e a areia de rio incha com o excesso de água, mas parece estar encharcada. Pisei com o pé direito e ele afundou tanto, que veio areia até a metade da canela. Como isso poderia acontecer a uma irmã mais velha tão respeitável? Sofri com aquilo. Mas segui determinada e quebrar o menino ao meio, ainda mais agora que estava furiosa com as meias e os kichutes ensopados. Argumentos e movimentos agressivos, que definitivamente iriam amedrontá-lo e nunca mais ele iria se meter com os irmão da Anna Karenina, eram ensaiados minuciosamente na minha cabeça. Quem me conhece deve estar pensando: como ela mudou! Não mudei nada. Cheguei, tirei meu irmão de perto dele, não encostei a mão no maldito do menino e só perguntei se o Júnior tinha se machucado. Falei pro desgraçado não fazer mais aquilo e o ameacei com a Irmã da Graça. Que vergonha... pois é. Mas ainda hoje eu viro aquele bicho se mexem com os gêmeos. A gente pode se matar, mas ninguém abra a boca pra falar mal deles. Só eu.

            Ahhh... quantas lembranças tão boas que nos aproximam tanto e me fazem sentir uma gratidão enorme porque amanhã, quer dizer hoje eles completam 38 aninhos. O que teria sido deles sem a minha proteção? Eles tiveram muita sorte. Mas eu também, e em dobro! Faz uns anos que tenho a sensação de que ter irmão é muito bom! Então, que vivamos juntos muitos anos mais e ai de quem inventar de furar a fila na hora da morte, heim! Dessa prerrogativa de primogênita eu não abro mão!