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terça-feira, 6 de maio de 2014

Antônia, Tota, Toty

Mais uma Crônica de Família para encher o Balaio de delicadeza e ternura.  

            O ano era o de 1937. Isso mesmo. O ano em que Getúlio Vargas outorgou a nova Constituição, implantando a ditadura do Estado Novo. Também foi nesse ano que a rádio Tupy entrou no ar e Orlando Silva gravou Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro - “meu coração, não sei porque, bate feliz quando te ver...” Ainda naquele 37 foi inventada a caneta esferográfica, pelo húngaro Ladislao Biro e a primeira fotocopiadora foi patenteada nos EUA. Muitos ganhos. Mas foi este mesmo ano que o Brasil perdeu Noel Rosa. Pois é. O país perdia um ícone na música e eu ganhava uma tia. Quer dizer, ganhar não ganhei, porque ali eu ainda nem era. Mas que foi um ganho foi. No dia 22 de setembro de 1937 nascia Antônia Teixeira, que jamais seria chamada pelo nome de batismo e sim por uma apelido, que depois eu soube, é destinado aos Antônios e Antônias: Tota. Ou no caso dela, Toty. É assim que ela assina seus quadros e textos.
            Não foi por caso que comecei a conversa com dados históricos. Tem tudo a ver com ela, que ainda muito moça se formou professora na Escola Normal em Crateús e por anos a fio ensinou Estudos Sociais. Começou ensinando na Escola da Dona Rosa Morais, prima legítima de sua mãe e sua alfabetizadora. Depois foi professora no Colégio Pio XII, cujo proprietário era o tio Zezé, que antes era o Monsenhor Bonfim e depois foi o companheiro cansado da tia Joaninha.
Nascer no ano de implantação do Estado Novo foi só uma tolice da História. A Toty sempre demonstrou ter liberdade e independência. Tanto, que casou tarde e com um homem mais novo que ela, o que era bem incomum naquele tempo. Acho que minha tia sempre teve a liberdade do artista e a elegância do esteta. E por causa dessa história toda ela é sempre requisitada para escrever os discursos, as cartas, as falas bem articuladas, com a medida certa de emoção, que tanto enobrecem a invenção de Biro.
Agora em outubro, a cidade comemorou o centenário de Dona Rosa Morais. Claro que a Toty não só participou da comissão organizadora, como preparou lembranças delicadas, dedicou-lhe um texto, como inevitavelmente seria, e junto com outros ex-alunos ainda cantou na lá frente. Dos nove ex-alunos, que vi lá no palco, um terço era de Azevedas: Toty, Joaninha e Madalena. Todas organizadoras, cada uma no seu reino. E ela, a Toty, é a senhora das pequenas coisas, dos detalhes e da mansidão. Também é a desenhista oficial das árvores genealógicas. A primeira, ela fez, se não me engano, na comemoração das Bodas de Diamante dos meus avós. Fez treze. Uma para cada filho e outra pro vovô e a vovó. Dá para imaginar quantos nomes precisavam caber numa árvore de doze galhos? Mas com a letra dela coube! E a ideia foi sendo sofisticada.
A última versão da árvore ela preparou para entregar a cada irmão durante a celebração dos cem anos de nascimento de seu pai. E não foi desenho não. Cada irmão recebeu um galho e uma caixa de papelão bem bonita, com a foto dos pais sobre a tampa e sua própria no verso. Dentro, vinham pequeninas molduras 3 x 4, feitas de biscuit com a foto de cada um daquele galho. E o tronco, sobre a mesa bem arrumada, só esperando os galhos revividos carregados de fotistórias penduradinhas. Aí cada filho, em ordem alfabética de nascimento ia incluindo seu galho. O mais divertido era ouvir os “agora tu Zé, agora a Joaninha, é tu Socorro, cadê a Madalena? é a vez dela...” Foi uma festa tão linda, que os olhos todos ficaram sorrindo.
Quando crianças era na casa dela que ficávamos com minha mãe durante as férias em Crateús. A casa, as roupas, o universo dela inspiravam a elegância e a atmosfera da artista, que eu imaginava. O desenho de sua casinha com tantas plantas, baixinha, aconchegante, me dava sempre a sensação de estar entrando num mundo de outro mundo. Ainda hoje eu tenho um não sei quê de excitação com o veludo e o dourado. Quando ela começou a reforma nessa casa, foi morar na casa da Coronel Jiló, onde morou com sua avó durante a infância. Não só ela, mas cada um que ia completando seus sete aninhos, saída do Curral Velho, que ficava a uns 20 quilômetros da cidade, e ia morar com a Mainha, para estudar. Era assim que eles chamavam a avó. Quando a tia Tota morou lá, pela segunda vez, o sobrado, que durante o ano era o quarto do Tino, virava um albergue nas férias! Mas diferente de um albergue, lá o dia começava igual para todo mundo, que estivesse hospedado, e bem cedinho.
O sol ainda limpava a remela dos olhos e lá ia a tia Tota subindo a escada de madeira, seguida pelos sons dos próprios passos, com uma bandeja carregada de copos da Tupeware cheinhos de leite com nescau. Ela nos acordava com aquela voz mansa e entregava o copo. A nós cabia tomar o leite no gute gute, praticamente dormindo. Limpávamos o bigode de leite com a borda do copo e nos deitávamos de novo. Sua marca registrada. Duvido que haja um primo ou prima que não lembre disso! Mas ruim mesmo era pro coitado do Júnior, hoje seu genro, que quando namorava a Jô e se hospedava por lá, tinha que tomar o bendito desjejum sem suportar leite. Mas isso ele só confessou outro dia. Essa é a Dona Toty, que nem a mais avançada fotocopiadora vai conseguir reproduzir!
Conhecedora do mundo através dos livros, só há pouco tempo teve a oportunidade de desbravá-lo com suas próprias pernas. Foi depois que a vovó decidiu que já estava na hora de encontrar meu avô, que as Azevedas resolveram ganhar esse mundão de meu Deus e começaram a fazer viagens, muito simples para alguns, mas para nós, épicas! E foi na primeira viagem delas para a Europa que ela ganhou o título de MC Toty. Sendo ela a senhora das coisas meticulosas, precisas e cuidadosas não poderia jamais ser a senhora da ligeireza. Isso fica pra Socorro ou pra Madalena. E foi aí que durante os passeios em Lisboa, sempre se estava a esperar por ela. De certo, encantada com tudo aquilo que via. Eu faria o mesmo: me demoraria diante da mais simples visão do velho mundo. Claro que isso virou motivo de chacota entre as irmãs.
— Cadê a Toty? – perguntava uma.
— Ah, a mata capim deve tá examinando a... – respondia a Socorro aperreada.
— E Toty, heim, cadê? – perguntava outra.
— Ah, a mata capim... já viu! – respondia a Socorro gesticulando com se imitasse a lentidão da irmã.
O MC vem de mata capim que é tudo que se demora tempo suficiente num lugar a ponto de matar o capim sob seus pés. Aí o Brenno que é gaiato que só cunhou o novo apelido moderno pra tia: MC Toty. Isso virou a razão das melhores rinchadeiras entre elas. Sim, porque se há uma habilidade que é de todas é a risada. Como elas se divertem quando estão todas juntas. Pois é, mas a Toty não é só esse anjo de candura, não.
Nessa colheita de histórias sobre a família da minha mãe fiquei sabendo de uma espetacular. Foi a mainha que me contou. Era uma época do ano de festividades religiosas e meus avós tinham ido à quermesse no Santo Antônio, um vilarejo mais ou menos perto da fazenda. Elas, que têm apenas um ano e oito meses de diferença, tinham ficado em casa com os irmãos. Aquele tempo o maior cuidava do menor, não importando o quão pequeno fosse o maior. Acredito que minha mãe tivesse seis e ela quatro ou cinco anos. O que minha mãe me disse foi que como ela, Vilanir, era a mais velha e portanto, tinha cuidado da irmã, ganhou de presente a boneca de celulose que meus avós deviam ter ganhado nas brincadeiras da quermesse. Pois a Toty, num ato de fúria infantil, não teve dúvida e jogou a pobre boneca no fogão a lenha. A mainha conta que numa lambida só o fogo levou a bonequinha. Aí deve ter sido aquele chororô e briga. Mas isso eu só imagino porque ela não contou nada. E o melhor é que a própria Toty não se lembra do episódio. Mas tem nada não, tem a Vilanir pra contar.
            Hoje elas devem se encontrar mais tarde lá em Crateús, pela triste ocasião do velório da Marizinha, que foi criada junto com elas. Vão começar tristes e vão chorar, como de costume, mas sempre terminarão dando risadas das histórias das quais irão se lembrar para manter viva a memória da amiga. A Dona Toty, com certeza, está preparando alguma homenagem. Porque ela é assim: a senhora da generosidade que há nos pequenos gestos de carinho. A senhora por quem meu coração vai sempre bater feliz e meus olhos sorrir quando a encontrar. E eu sei porque.

2 comentários:

  1. Uma crônica linnnnnnda, terna. Coisa boa!

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  2. Você, como sempre, prestigiando esse espaço, né? Linda é você!

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