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quinta-feira, 1 de março de 2012

No caldeirão da Vila

Queridas e idos vistantes, mais uma Crônica de Balaio. Para mim, escrever essa crônica foi como curar feridas antigas. Trouxe uma leveza impressionante. Boa leitura.


Que toda mulher nasce com potencial para bruxa, isso eu já sabia. Agora, que minha mãe pudesse ser uma, foi uma surpresa! Descobri isso quando estive de férias em sua casa, conversando sobre seu casamento com meu pai. Quando morávamos em Russas e o papai trabalhava no INSS, aposentando quem já tinha dado sua contribuição para o futuro da nação, ele ganhava muitos presentes. Um queijo coalho de 3 kg, duas galinhas caipiras bem gordas, um quarto de criação, um cacho de bananas. Enfim, qualquer coisa que pudesse, proporcionalmente, representar a enorme gratidão daquelas pessoas. Pois é, mas digamos que além dos presentes, lá em casa nunca se comprou comida de pouco. Era tudo sempre de muito! Talvez fosse a memória da fome que meu pai passou quando criança, que o aterrorizava. Sei lá. Fato é que mesmo quando era ele que comprava a carne, vinham no mínimo 5kg. A mamãe detestava. Não só porque ela não entendia aquela necessidade de estoque, mas porque, e talvez principalmente, era ela quem tinha que dar conta de limpar e desmanchar aquilo tudo em bifes, pedaços para cozido e moer outro tanto. Como ela reclamava.
Aí um dia, não satisfeito em dar a ela um trabalho de cão, papai passou pela cozinha, enquanto ela limpava a carne, e caiu na besteira de fazer o comentário infeliz que despertou as sombras da Vilanir: “Vila, desse jeito, metade da carne vai para o porco!”
­— Minha filha, naquela hora o sangue me subiu até a cabeça, mas eu não disse um ai! Fiquei só pensando. “Ah é, bichinho? Deixa estar.” Peguei as peles, os nervos e o sebo que eu costumava tirar e temperei bem direitinho, como eu temperava tudo.
            Enquanto minha mãe falava, a cena que tomava formas tão concretas em minha cabeça me perturbava de um jeito muito confuso. Dava para cheirar o prazer em sua fala. Eu me dividia entre a identidade infantil que tinha com meu pai e a solidariedade feminina com minha mãe. E ela continuava.
— No dia seguinte, como sempre, eu tinha feito uma carne para vocês e outra para ele.        
            Era verdade. Nós não gostávamos daquilo que o painho comia com tanto gosto. Eu não entendia como alguém podia preferir rabada a um bife de alcatra, buchada a titela de galinha.
— Chamei todo mundo para almoçar e comecei a fazer os pratos de vocês enquanto ele fazia o dele. – Comecei a sentir raiva da minha mãe. “Como ela teria sido capaz de fazer aquilo com o meu pai? Isso não se faz! É, mas ele também facilitou, não é? Ah, é que na cabeça dele bastava botar comida em casa. Isso já era muito! Ah sim, botar comida em casa e não valorizar o trabalho que a mainha tinha com ele, com a gente e com a casa? Muito fácil! Mas ele não fez por mal! Pois ela fez e eu estou morta de orgulho!”
            À medida que a mamãe descrevia a reação dele ao mastigar a primeira garfada e a cara de satisfação dela, fazendo de conta que não estava entendendo nada, aos poucos meu anjinho infantil desistiu de defender o painho e foi embora voando pela janela. Aos jorros, as memórias ruins de nossa vida se derramavam em mim e aquela atitude de minha mãe era a vingança de que eu jamais seria capaz. Eu me deleitava com aquilo tudo. Poder ver o lado sombrio da mamãe me aproximava dela. Certamente porque eu também poderia ser uma bruxa, caso fosse preciso. E eu também seria capaz de cozinhar a raiva, a indignação e a revolta, bem temperadinhas, e servi-las. Ah, como eu seria!
— Minha filha, mas seu pai ficou tão desconfiado, que nem disse nada e saiu da mesa como de costume: de barriga cheia. De certo, para não dar o braço a torcer. No final, sabe que eu até tive pena do coitado? Mas também, quem mandou?
— Vilanir, mulher, eu nunca pensei que tu fosses capaz de fazer uma presepada dessas. Quem não te conhece que te compre, heim!
            Demos risadas. Carinhosamente abracei minha mãe com um abraço de perdão. Primeiro por ter se separado do meu pai, depois, por ter se mantido, por tanto tempo, em um casamento que já não estava bom. Cá entre nós, ô bicho estranho é esse ser humano. Vai entender! Depois de nos convencermos mutuamente que cada um faz o que pode e como pode, pensei no papai com um carinho danado. Se cada um faz o que pode, ele também fez. E diferente do que ele nos fazia acreditar, ele não é prefeito, é só um homem que escreveu uma história, e sabe-se lá o quanto dela ele realmente quis escrever. Enquanto a Vilanir foi atender a porta, fiquei pensando naquela história toda e resolvi ligar para ele.
- Jesus te ama!
- Oi tia Mazé, o painho está por aí?
- Está sim minha filha, vou chamar.
- Alôôôô!
- Pai?
- Diga minha filha.
- Nada não, liguei só para dizer... te amo.

4 comentários:

  1. Karê,

    Dei boas risadas. Lembrei-me do meu cunhado, Erivaldo, baiano de Itabuna, que também tem a mania de chegar na sua casa com um panelão de comida para fazer, até a panela de pressão estourar e sujar o teto. E quando ele vem do supermercado cheio de iogurtes e outros produtos, tudo liquidação. Daí ele fala : "O Mauzinho, não quer levar pra sua casa?" . Então eu levo e quando vejo a data de vencimento: "Gente, vamos ter que dar conta destes iogurtes de hoje para amanhã, senão estraga tudo..."

    bj,

    Mauzinho

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    1. Ha, ha, ha, ha... que ótimo!! Agora você já sabe, né?

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  2. Esta crônica ficou otima, eu adorei, deste a sua apresentação.
    bjs

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